O cenário económico pré-eleições

A situação favorável de recuperação económica e de taxas de juro em mínimos históricos deveria bastar para impulsionar o investimento privado e realizar reformas públicas produtivas.

Dia 23 de setembro o INE publicou dados revistos para a economia portuguesa. O défice de 2018 foi afinal ainda mais baixo do que se pensava (0,4%), o menor da democracia. As taxas de juro das obrigações de dívida pública portuguesa a dez anos encontram-se muito próximas da barreira dos 0%, tendo atingido o mínimo histórico de 0,09% em agosto. São números bonitos, especialmente quando constatamos que foram alcançados por um governo sustentado numa surpreendente coligação à esquerda, rapidamente apelidada de “geringonça”.

As vozes céticas quanto à estabilidade política e ao cumprimento das metas orçamentais foram imensas, mas ironicamente o resultado foi o governo nacional mais responsável, em termos orçamentais, de que há memória.

Em vésperas de final de mandato destaca-se como estrela principal deste executivo Mário Centeno. O apelidado “Ronaldo das Finanças” maravilhou o público nacional e internacional com a sua capacidade de driblar adversários em terreno pantanoso, concluindo ano após ano com remates certeiros às metas dos défices. Exibições deslumbrantes galardoadas com a presidência do Eurogrupo e a presença entre os nomeados para presidente do FMI. Nem a declarada mudança tática de “austeridade” para “reposição dos rendimentos” pareceu ensombrar as perspetivas internacionais sobre a estabilidade orçamental portuguesa (os prémios de risco das obrigações da dívida portuguesa em relação às alemãs estão também em mínimos históricos, semelhantes aos pré-crise).

Com uma taxa de desemprego a regressar a níveis socialmente aceitáveis e um lampejo de crescimento económico moderado – um oásis no deserto das últimas duas décadas –, não espanta que a única dúvida seja se Ronaldo voltará a entrar em campo acompanhado ou se desta vez o metemos a jogar sozinho. As sondagens apontam para uma vitória clara do PS, sendo que em caso de não existir maioria absoluta o cenário mais provável é a reedição de alguma forma de geringonça à esquerda.

Apesar da beleza inquestionável deste fresco há outros números que ferem o sentido estético. É difícil ignorar aqueles que ditam sermos o país com o nível mais baixo de investimento público e o segundo mais baixo de investimento total na União Europeia (em percentagem do PIB). A situação favorável de recuperação económica e de taxas de juro em mínimos históricos deveria ser mais que suficiente para encontrar forma de impulsionar o investimento privado e realizar investimentos e reformas públicas produtivas, essenciais para um crescimento sustentado da economia.

Outra fonte de preocupação é a paisagem internacional. Apesar de ainda serem positivas, as perspetivas futuras não se afiguram encorajadoras e muitos já veem nuvens negras que podem ser indícios de tempestade – as previsões para o crescimento económico mundial vêm constantemente a ser revistas em baixa e muitos especialistas dizem-se preocupados com a possibilidade de uma eventual crise. A enorme dívida pública e privada nacional em conjunto com a maior carga fiscal de sempre não auguram nada de bom quando for preciso encontrar dinheiro para comprar um guarda-chuva.

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