O custo do juro

As mais recentes quedas do mercado refletem a eliminação dos excessos, constituindo, como sempre, uma oportunidade de investimento para os investidores de longo prazo.

Os mercados de acções e obrigações estão a registar o seu pior início de ano desde 1932, com o índice americano S&P 500 a corrigir 17,4% nos primeiros cinco meses do ano.

A ampla liquidez fornecida pelos bancos centrais a taxas zero sustentou, durante anos, o investimento na inovação, nas energias renováveis, na valorização de quase todos os activos financeiros e em alguma exuberância nos preços dos activos.

A inflação, natural quando se imprimem triliões de dólares, esteve mitigada pelo efeito da globalização, com a China a desempenhar um papel essencial na manutenção de preços baixos, e pelo efeito da estabilidade do preço da energia, nomeadamente do petróleo e gás natural.

As interrupções nas cadeias de abastecimento e o choque do preço do petróleo e gás, implicaram uma subida de preços abrupta, que não sendo temporária, se está a propagar a toda a economia.

Temos duas formas de reduzir a inflação, e até de criar uma pequena deflação, que seria positiva no contexto actual.

A primeira medida, que terá maior impacto sobre os consumidores e empresas, é baixar o custo da energia, que terá um efeito cascata em toda a economia. Para tal poder ser alcançado, seria necessário o aumento da produção, racionalização ou forte redução dos impostos.

Sendo a oferta relativamente rígida por conta da ausência de investimento nos últimos anos, a medida com efeito mais célere será os Estados abdicarem da receita fiscal, apoiando desta forma todos os agentes económicos, e evitando o aumento do fosso social.

A segunda via para reduzir a inflação, aparentemente escolhida pelos bancos centrais e governos, é fomentar a redução da procura através da forte desaceleração na economia, que pode degenerar numa recessão.

A retórica colocada no aumento das taxas de juro cria vários tipos de constrangimentos, que poderão levar a uma recessão já nos próximos meses. Com efeito, os juros irão subir este ano cerca de 2,5% nos EUA e 0,75% na Zona Euro, com enorme impacto no consumidor, nas decisões de investimento das empresas e na concessão de crédito, uma vez que o risco irá aumentar.

Mas a subida dos juros tem dois efeitos positivos nos mercados – a eliminação da alavancagem e a literacia financeira à força. Muitos investidores, atraídos pelas fortes valorizações dos últimos anos, olhavam para o mercado como um casino, onde, diariamente, podem através de ETF (fundos cotados) ou contas alavancadas, tentar a sua sorte.

O regresso do juro tem consequências ao nível da valorização dos activos, pois introduz o custo de oportunidade, diminui as valorizações e aumenta o custo do financiamento do crédito para investimento. As mais recentes quedas do mercado reflectem a eliminação dos excessos, constituindo, como sempre, uma oportunidade de investimento para os investidores de longo prazo, mais focados nos fundamentais das empresas.

A história ensina-nos muito e, neste caso, em todos os anos com correcções desta magnitude foram registadas recuperações acentuadas, criando grandes oportunidades de investimento.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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