O desafio de fazer crescer exportações em contexto de recessão global

O sector exportador nacional tem-se afirmado cada vez mais, fruto de uma resistência aos choques negativos assinalável, mas 2023 trará um cenário desfavorável ao comércio internacional e desafiante.

Depois do balão de oxigénio dado à economia portuguesa no pós-troika, as exportações assumiram-se como uma componente determinante do crescimento nacional e um aspeto a explorar por vários sectores, que procuram cada vez mais afirmar a marca Portugal nos mercados externos. A recuperação pós-pandemia tem sido positiva, com recordes de crescimento em vários ramos, mas a balança comercial continua negativa, mostrando espaço para melhorias – mas, num contexto de recessão, o grande desafio será perceber como.

Os dados de setembro quanto ao comércio internacional português revelam um aumento de 24,7% das exportações face a igual mês de 2021, quando a pandemia dava sinais de abrandamento, mas condicionava ainda a atividade económica nacional e global. Em cadeia, este crescimento foi de 18,8%, ao passo que o terceiro trimestre registou um avanço homólogo das vendas ao exterior de 28%.

Apesar de números animadores, estes ficaram sempre abaixo das importações, onde a componente energética desempenha um papel cada vez mais importante, dado o efeito preço que representa a crise energética. No terceiro trimestre, as compras ao resto do mundo cresceram 36,1%, enquanto setembro registou um aumento de 29,6%, ambos homólogos.

Para a totalidade deste ano, a Associação Empresarial de Portugal (AEP) destaca a expectativa de “ganhos adicionais de quota” no mercado externo, dado que as exportações devem crescer “acima da procura externa”, refere Luís Miguel Ribeiro, presidente da associação. Depois de acelerarem 18,6% na primeira metade do ano, que se dividem em 10,2% nos bens e 41,0% nos serviços, a projeção para o final de 2022 é de 18% de crescimento nas vendas ao exterior.

De destacar é a evolução do turismo, onde as exportações “beneficiaram do levantamento das restrições no contexto da pandemia e da concretização de despesas adiadas durante a crise pandémica”, impulsionando o sector dos serviços. Dada a importância desta atividade na economia nacional, o crescimento no terceiro trimestre refletiu esta melhoria, ao registar 4,2% em termos homólogos.

Luís Miguel Ribeiro sublinha ainda os combustíveis e óleos minerais, cuja vendas ao resto do mundo desde o início do ano até setembro cresceram 84,7%, um número bastante destacado das restantes principais categorias de exportação.

Ainda assim, é de mencionar “outros bens industriais com dinâmicas muito interessantes”, como os “químicos, com 41,4%, a madeira, cortiça, pasta e papel, com 33,8%, os metais, que avançaram 26,4%, o calçado, com 23,1%, os plásticos e borracha, que cresceram 20,2%, o vestuário, com 17,1%, os têxteis, com 18,1%, as máquinas e aparelhos, com 15,9%, ou ainda o material de transporte”, que vendeu mais 13,7% para o exterior.

Importações também crescem
“Contudo, é preciso não esquecer que, até setembro, as importações de bens cresceram ainda mais em termos nominais, 36,7%, com o forte contributo do grupo de combustíveis e óleos minerais, de 123,6%, levando a uma deterioração significativa da balança comercial de bens”, ressalva Luís Miguel Ribeiro.

De facto, a componente energética tem encarecido substancialmente as compras de Portugal ao exterior, dada a sua dependência externa neste capítulo. A título de exemplo, a leitura de setembro do INE quanto aos dados do comércio internacional mostra que, excluindo combustíveis e lubrificantes, se registaram aumentos de 23,8% nas exportações e 26,2% nas importações, valores significativamente abaixo da leitura nominal.

Em sentido inverso, nos serviços verifica-se um ritmo de crescimento desde janeiro das exportações bastante acima do das importações, com 79% nas vendas face a 41,8% nas compras, o que significa “que o excedente da balança de serviços está a aumentar, contrariando a evolução desfavorável nos bens”, sublinha o presidente da AEP.

Contexto recessivo é um desafio
Em declarações ao JE, o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) aponta a um aumento que colocará as exportações nacionais pela primeira vez acima dos 100 mil milhões, um número redondo que espelha bem a evolução positiva deste indicador.

Luís Castro Henriques refere o peso crescente das vendas ao resto do mundo em função do produto português, destacando que as exportações chegaram a uma proporção de quase 50% do PIB no primeiro semestre numa tendência clara de afirmação nos mercados globais. Esta trajetória, argumenta, não seria possível sem a grande resistência das empresas nacionais face a choques externos muito negativos, como a pandemia e a atual crise energética.

O desafio para 2023 será, portanto, a continuação desta tendência num ambiente de recessão global a quem nem a China, um balão de oxigénio para a Europa em crises recentes, escapará. Em particular, mercados tradicionais como o alemão e o britânico atravessarão um ano complicado, ao passo que os EUA, que têm subido na lista de principais destinos das exportações portuguesas até se cimentarem no quarto lugar da lista, também se debate com juros em alta e a perspetiva de uma recessão.

Perante isto, ações de internacionalização das empresas nacionais tornam-se ainda mais relevantes, defende Luís Miguel Ribeiro. O objetivo passará por “prosseguir o reforço da diversificação dos mercados de destino das exportações portuguesas”, procurando chegar a novas localizações geográficas e economias mais diversificadas, e, como tal, “alcançar ganhos de escala empresarial adquirem uma importância crescente”.

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