O desastre da pressa

Por muito que os bancos centrais tentem gerir as expectativas de inflação controlada e baixa, a verdade é que são os consumidores quem irá pagar este imposto da transição ambiental.

Nos últimos meses, os dados divulgados da inflação têm sido bastante preocupantes. Nos Estados Unidos, a evolução dos preços situa-se nos 5% ao ano, e na zona euro atingiu os 3%, o valor mais alto em dez anos. Mesmo assim, os bancos centrais continuam a gerir as expectativas e transmitem que é apenas um efeito temporário.

É certo que 2020 foi um ano para esquecer, mas devemos ter presente que a inflação contribui para aumentar o fosso entre classes sociais, originando potenciais conflitos e instabilidade social, pelo que é um fenómeno ao qual importa dar a devida atenção.

Com efeito, quem tem mais literacia financeira e capital consegue contornar a perda de poder de compra, seja por via do investimento no mercado de capitais, seja pela optimização e substituição de produtos no seu cabaz de compras.

Mas existem alguns factores, comuns a todos os cidadãos e empresas, como o custo da electricidade e das matérias-primas, que tem um impacto transversal na economia, porque não é possível deixar de consumir uma e outras.

Esta semana, o preço do gás na Europa subiu mais de 25%, e se contabilizarmos o último mês, este valor sobe para os 80%. Se pensarmos que se aproxima o Inverno e que este é um custo relevante para as famílias europeias, então podemos considerar que estamos perante um impacto financeiro equivalente a um imposto sobre o rendimento disponível das famílias.

Mas não é apenas o gás. O mesmo se passa com a electricidade, cujo preço mais do que duplicou na Alemanha e triplicou em Espanha desde o início do ano.

Estas alterações significativas nos preços e num curto espaço de tempo irão desencadear reacções politicas, para conter as pressões sociais que se irão seguir, mas não iremos ao fundo do problema. Com a transformação digital da sociedade, o consumo de electricidade continuará a subir, necessitando de todas as fontes possíveis para manter os preços estáveis, pelo menos enquanto estamos numa transição energética.

Um dos problemas tem a ver com a velocidade da transição energética, a adopção dos critérios ESG – Environmental, Social and Governance e o desinvestimento nas fontes de energia ainda consideradas tradicionais, como o gás ou o petróleo. A pressão na adopção dos critérios ESG de sustentabilidade afastaram investidores e empresas do investimento nas energias mais poluentes, sem garantir oferta necessária do lado das “renováveis”.

Como a utilização e necessidade de consumo de energia nunca foram tão elevados, temos um efeito de procura que não tendo sido planeado, tem efeitos no aumento dos custos de produção de bens ou dos gastos pessoais.

Qualquer mudança deve ser planeada, gradual, sob pena de a mudança ser desastrosa. Por muito que os bancos centrais tentem gerir as expectativas de inflação controlada e baixa, a verdade é que são os consumidores quem irá pagar este imposto da transição ambiental.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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