O desgaste de Marcelo e de Costa

Dizia um sábio destas questões, que ocupou e usou o poder em Itália durante décadas, Giullio Andreotti, que “o poder desgasta quem o não tem”, porém, se transpuséssemos essa máxima para a atualidade portuguesa, poderia soar falaciosa.

Na quinta temporada do monumento de série que é “The Crown”, ouvimos que “o verdadeiro estadista vai além do tempo em que se ocupa um cargo público”. Mas ser um homem de Estado traz uma aura de poder, tal como também o seu cansaço, como no mito romano de Jano, o deus das duas faces.

Dizia um sábio destas questões, que ocupou e usou o poder em Itália durante décadas, Giullio Andreotti, que “o poder desgasta quem o não tem”, porém, se transpuséssemos essa máxima para a actualidade portuguesa, poderia soar falaciosa.

Marcelo Rebelo de Sousa tem sofrido uma erosão de popularidade por culpa própria. Por excesso de exposição, por excesso de opinião e comentários avulsos. O Presidente da República até pode referir que os portugueses o conhecem e não vai mudar o seu estilo, contudo, convinha que ouvisse mais pessoas do que a auto-sondagem que realizou na farmácia e no supermercado.

O seu saco de gomas e guloseimas recheado de afectos foi muito positivo no início do seu mandato, mas tudo o que é demais enjoa e há momentos em que a sua autoridade diminui com uma selfie, e só será reforçada com silêncio e ostentando as pesadas vestes da gravitas institucional.

Já António Costa é um caso diferente. Após sete anos de governo, regista-se um efectivo desgaste que, curiosamente, se agravou após a conquista da maioria absoluta. A geringonça, hoje é cristalino, requeria muita negociação e compromissos, mas obrigava a uma coordenação que actualmente é inexistente, para lá de garantir o conforto do braço-armado do PCP, os sindicatos, fora da contestação das ruas.

São sete mudanças em oito meses de Governo, uma delas que dinamitou a ministra mais popular, Marta Temido; casos e casinhos de diversos membros do Executivo; a juntar a um secretário de Estado que veio de Caminha para reforçar a coordenação política e que se revelou um autêntico pesadelo reputacional.

Portanto, não pode agora o PS escudar-se em pseudo-erros comunicacionais. Não, o problema é mesmo de péssima coordenação acentuada por um factor relevante: qualquer barco perde mais o rumo quando o timoneiro se ausenta. E António Costa, em virtude de vivermos uma guerra no nosso continente, tem passado muito tempo em Bruxelas.

Ora, está o primeiro-ministro em baixo de forma? Não. Como assisti na semana passada na conferência que marcou o primeiro aniversário da CNN, António Costa está em excelente forma, fez um magnífico discurso de improviso sobre a Europa e o estado da arte no mundo, e isso é um sinal de que a sua cabeça está lá fora, mais do que em Portugal.

Esse é o grande motivo pelo qual algumas coisas estão a falhar por cá. Tem, pois, de reencontrar o ponteiro certo das prioridades.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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