O Discurso Secreto!

A ligação do PCP ao processo democrático, que existiu, é uma coincidência, apenas. Eles queriam uma ditadura comunista, e para a instalar era necessário derrubar o fascismo. Este era o único ponto de convergência com os democratas e com a democracia, mas não deve promover equívocos.

A 25 de fevereiro de 1956, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Khrushchov proferia um discurso histórico para a URSS, para todo o bloco de leste, e para a liderança comunista daquela gigantesca federação. Recorde-se que, após a morte de Estaline, em março de 1953, houve uma crise de sucessão, tendo sido estabelecida uma “troika” à frente do país, constituída por Lavrentiy Beria, Molotov e Malenkov, formalmente liderada por este último, mas de facto sob a égide do primeiro. Os tumultos em Berlim oriental, em junho desse ano, foram o pretexto perfeito para que uma conspiração liderada por Khrushchov depusesse, prendesse e assassinasse Beria, mantendo Malenkov como premier da União Soviética, mas rapidamente colocando o conspirador no principal cargo da URSS, a de Secretário-geral do Partido Comunista(PCUS). Quando proferiu o discurso que atrás referi, no XX Congresso do PCUS, NIkita já havia colocado um homem de mão, Bulganin, à frente do governo.

Comunistas que não se sabiam Comunistas

«Sobre o Culto da personalidade e as suas consequências», o título da preleção de Khrushchov, também conhecido como “O Discurso Secreto”, por não ter sido autorizada presença de elementos externos ou da comunicação social naquele congresso, versava sobre os malefícios do Estalinismo, de que o próprio Nikita foi um ator de destaque, apoiado no relatório da “Comissão Pospelov”, incumbida de apurar os contornos da “Grande Purga” contra os membros e candidatos do XVII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1934, e as perseguições ocorridas entre esse ano e 1939. O discurso também apontou baterias ao culto de personalidade que envolveu Estaline durante as 3 décadas da sua liderança de ferro.

Ainda que para nós pareça absolutamente estranho, pois o processo de desestalinização tinha começado logo após a morte do ditador, e por alguma razão sentiu-se necessidade que tal acontecesse, o conteúdo do discurso provocou uma onda de choque em boa parte dos delegados ao congresso. Houve relatos de membros do PCUS que sofreram ataques cardíacos ou de outros que cometeram suicídio nos dias subsequentes, tal a incredulidade com as atrocidades patrocinadas por Estaline e que estes, aparentemente, desconheciam.

Pensará, pertinentemente, o caro leitor “mas em que tipo de dormência profunda vivia a elite soviética, que lhes toldava o que estava à vista de todos?”. Parece realmente um absurdo que boa parte dos elementos que participaram em perseguições, tortura, deportações, conspirações, quando confrontados com as mesmas, da forma como realmente eram , sem eufemismos ou justificações ideológicas ou por “um bem maior”, tenham entrado em choque.

A onda de incredulidade estendeu-se um pouco por toda a megalómana geografia soviética já que a 5 de Março de 1956, o politburo do PCUS ordenou a todas as organizações partidárias, bem como aos membros do Komsomol, que o Discurso de Khrushchov fosse lido em todas as reuniões, tanto na presença de militantes como dos não membros. O Conceito de “Discurso Secreto” ganhava aqui um significado anedótico, já que era do conhecimento geral.

Multiplicaram-se os relatos de suicídios, de um povo que vivia sob o jugo comunista, mas que parecia não observar nem se aperceber da execução prática do comunismo. O discurso também chegou aos líderes comunistas dos países da Europa de leste e, nesse mesmo ano, deu origem a manifestações na Polónia e Hungria, originando nesta última o esmagamento duma revolução pela força dos tanques de exército vermelho. Imre Nagy, o líder reformista Húngaro que, tal como Władysław Gomułka na Polónia inspirou-se no discurso para afastar o seu país do comunismo, mas ao contrário do polaco não fez marcha atrás perante a força bruta soviética, acabou preso, “julgado” executado a mando do “desestalinizador-mor”, Khrushchov.

O Comunismo é sempre o Comunismo

Este enredo elucida que o problema das primeiras décadas de “comunismo de estado” na União Soviética, e fora desta, não se resumia a Estaline. O homem que promoveu a desestalinização usou os mesmo métodos, as mesmas conspirações, a mesma força esmagadora, culminando com a mesma concentração de poder, quando juntou em si os cargos de premier do governo soviético ao posto cimeiro de Secretário-geral do PCUS.
Khrushchov não fez diferente, pois não poderia fazê-lo. Quanto aos comunistas soviéticos aperceberem-se com choque do que implicava o comunismo, sendo algo surpreendente, esteve longe de ser inédito.

O Comunismo português.

Lembrei-me deste episódio a propósito do “choque”, cá está, que a posição do partido comunista português tem assumido no contexto da invasão russa à Ucrânia. Como se os portugueses tivessem acordado para a realidade de que os comunistas portugueses são “mesmo” comunistas. Depois de anos a nos venderem a ideia de “comunismo light”, muito alimentado por António Costa para justificar a admissibilidade da Geringonça, e os acordos que intentou com dois partidos antidemocráticos para garantir a sua sobrevivência política, os portugueses parecem ter percebido o logro. Estão a ser expostos ao seu próprio “discurso secreto”. É falsa, portanto, a ideia que ainda hoje se ouve e lê em alguns comentadores órfãos da Juventude comunista, de que “o Partido comunista português é diferente!”, não é comunista como os seus extintos congéneres europeus. Que até “é democrático pois deu um contributo inestimável no combate ao fascismo do Estado Novo”. O equívoco, como qualquer criança percebe, é que o combate ao Estado Novo não faz do comunismo, nem dos comunistas, democratas convictos. Porque para eles nós não vivemos numa democracia de facto, mas numa “democracia burguesa”. Porque Cunhal deixou bem claro nos momentos quentes do pós-revolução que a concretização da democracia não exigia que se realizassem eleições.
A ligação do PCP ao processo democrático, que existiu, é uma coincidência, apenas. Eles queriam uma ditadura comunista, e para a instalar era necessário derrubar o fascismo. Este era o único ponto de convergência com os democratas e com a democracia, mas não deve promover equívocos.
O partido comunista é isto. Sempre foi e sempre o será. Reconheça-se a coerência.

O Oportunista BE

O mesmo não acontece com o BE. A posição do Bloco de Esquerda no início do conflito era muito mais próxima daquela que tem o PCP, do que com a aparência de condenação a Putin que os bloquistas entretanto imprimiram. Quem se lembra , no final de fevereiro, de ouvir Mariana Mortágua afirmar na SIC que “ninguém sabe o que querem os ucranianos”, sugerindo que estariam desejosos de saudar a entrada das forças armadas russas para os salvar de “um governo fascista, corrupto” como apelidou o executivo ucraniano, e que a influência dos Estados Unidos e da Nato seria a mola potenciadora do conflito? Ou a firme oposição de Francisco Louçã à cascata de sanções infligidas à Rússia, sob pretexto que prejudicariam os russos (não é para isso que servem? Para criar pressão interna?). Já imaginaram Louçã insurgir-se contra a greve dos transportes públicos pois esta prejudicaria os trabalhadores que se deslocam dessa forma? Não é surreal?

A verdade é que o BE fez marcha atrás, apercebendo-se da pesada fatura eleitoral que uma posição ideologicamente coerente implicaria. Mas há quem não se esqueça.

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