O efeito ‘matrioska’ nas exportações e retoma nacionais

Como na ‘matrioska’, os efeitos do conflito militar têm várias faces. O aumento dos custos energéticos e inflação são os mais visíveis. Deterioração financeira dos parceiros comerciais, logo menos compras a Portugal, ameaçando a retoma.

As exportações tiveram um papel decisivo na recuperação da economia entre a crise global financeira e a pandemia, passando de 47,9 mil milhões de euros em 2009 para os 93,7 mil milhões em 2019, antes de a pandemia interromper estes onze anos de crescimento do indicador. Com a Covid, a situação alterou-se, voltando o país a uma balança comercial deficitária, algo que não se verificava desde 2011. Numa altura em que se apostava na inversão deste saldo, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia coloca agora novos receios quanto à evolução das exportações e à perspetivada retoma, que já estava condicionada pela inflação que em fevereiro atingiu os 4,2%.

Efeitos da guerra poderão, assim, surgir em diferentes intensidades na zona euro, assumindo, tal como na ‘matrioska’, diversas faces de uma nova crise pré-anunciada.

Para o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), o impacto económico em Portugal do conflito entre a Ucrânia e a Rússia decorre principalmente da forte dependência europeia relativamente ao gás natural, uma vez que perto de 40% do gás importado pela Europa é proveniente da Rússia. “O impacto nas empresas portuguesas será direto, pelo aumento dos custos energéticos, e indireto, uma vez que toda a economia europeia será afetada”, defende António Saraiva. Realça que “a economia portuguesa está ameaçada por esta questão geopolítica”, considerando que a intensidade destes impactos “dependerá da evolução do conflito, da sua duração, das sanções económicas a ele associadas”.

No imediato, a guerra na Ucrânia pode afectar os sectores da cortiça, alimentar, calçado, vinho e turismo – os mais expostos aos riscos de perturbação no comércio. Em todo o caso, diz Saraiva, não será este o fator que mais impacto terá na economia portuguesa, dado o peso modesto que as exportações e importações destes mercados tem no nosso comércio internacional. A Rússia absorve 0,3% do total das exportações portuguesas e dela provem 0,8% do total de importações; relativamente à Ucrânia, os números são 0,1% e 0,3%, respetivamente.

Um dado é certo. A resistência do tecido exportador português mostrou-se maior do que se inicialmente esperava, e em 2021, as exportações de bens conseguiram mesmo ultrapassar o valor verificado no pré-pandemia, com 62 mil milhões de euros contra 57,9 registados em 2019. Este resultado foi conseguido apesar do aumento da inflação na zona euro, que ameaçava já na segunda metade do ano passado afetar o dinamismo da recuperação europeia. No caso português, a pressão nos preços manteve-se, até agora, mais baixa do que no resto dos países da moeda única, o que poderia beneficiar as nossas exportações, mas o caso não é assim tão linear. Sendo uma situação decorrente dos preços da energia, a inflação portuguesa, ainda que menos expressiva do noutras congéneres europeias, “coloca as empresas com menos margem de manobra para aguentar os aumentos” do custo dos inputs energéticos, explica Pedro Braz Teixeira, economista do Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade. Por outro lado, ao deteriorar a situação dos nossos principais clientes, estes ficam com menor rendimento disponível, o que significa menos compras de bens às empresas portuguesas.

Novo embate para o Turismo
No campo dos serviços, o cenário é menos tranquilizante. O principal serviço exportado pelo país, o turismo, foi dos sectores mais afetados pela pandemia, especialmente num destino muito dependente do mercado externo como Portugal. As restrições às viagens internacionais mantiveram-se durante largos períodos de 2021, incluindo no final do ano, quando a recém-descoberta Ómicron levou a uma reimposição de medidas mais musculadas na contenção da Covid-19. O início de 2022 trouxe uma esperança renovada entre os empresários do sector numa recuperação que levou o número de hóspedes e dormidas de volta aos 29,5 milhões e 77,8 milhões, respetivamente, mas as perspetivas rapidamente se deterioraram.

“Se a diminuição dos impactos da pandemia começava a ser uma realidade, o que antevia para 2022 uma época alta do turismo que poderia ser o primeiro passo para a recuperação da atividade, neste momento, perante a situação de guerra no Leste da Europa, que terá consequências de difícil quantificação para o turismo e para toda a economia, é impossível fazer qualquer tipo de previsões seja a curto, médio ou longo prazo”, expõe Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal. O mercado russo não é expressivo nos turistas que visitam Portugal, não entrando nas 13 nacionalidades que mais escolheram o país para férias em 2019, mas os efeitos serão de outra natureza, projeta Francisco Calheiros.

“Os impactos irão sentir-se devido a toda a situação de guerra, já que as consequências irão atingir toda a economia, incluindo os rendimentos das famílias, que poderão ter menos meios financeiros para aplicar em férias, ao que se junta as questões de insegurança que as pessoas possam sentir na atual conjuntura”, observa.

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