O Egossistema

Outra das armadilhas do empreendedorismo em que muitos podemos cair é o EGOssistema, ou seja, quando o Ecossistema empreendedor se transforma na sua pior versão, movido por intenções menos comunitárias e solidárias do que seria realmente desejável. É do conhecimento geral que qualquer área de negócio, indústria ou sector muito beneficia da existência de um ecossistema […]

Outra das armadilhas do empreendedorismo em que muitos podemos cair é o EGOssistema, ou seja, quando o Ecossistema empreendedor se transforma na sua pior versão, movido por intenções menos comunitárias e solidárias do que seria realmente desejável.

É do conhecimento geral que qualquer área de negócio, indústria ou sector muito beneficia da existência de um ecossistema de atores que, com propósitos semelhantes e complementares, contribuem, colaboram e se fertilizam mutuamente para o crescimento, desenvolvimento e para missões e causas comuns.

No caso do empreendedorismo a criação de ecossistemas fortes é o que faz com que muitos dos hubs mundiais de startups funcionem. Nestes ecossistemas mais maduros encontramos empreendedores, startups, incubadoras e aceleradoras, universidades e centros de investigação, investidores privados e públicos, mentores, entidades públicas, entre tantos outros, transformando um verdadeiro sistema orgânico e articulado por relações nem sempre formais, mas solidárias no fazer acontecer. Juntos, constituem uma verdadeira rede, com um propósito genericamente comum e com códigos implícitos, que funcionam como um sistema para acelerar o aparecimento, desenvolvimento e crescimento de novos negócios.

No entanto, os ecossistemas de empreendedorismo, tal como na natureza (a quem se roubou esta palavra cara), algumas  vezes acabam por se desenvolver perversamente e convertem-se em sistemas mais tóxicos e negativos do que positivos. Muitas vezes acabam por se tornar em verdadeiros EGOssistemas quando se perdem os seus valores mais românticos e solidários de ajuda-mútua e de interesse genuíno no crescimento dos pares e nas relações win-win. O EGOssistema do empreendedorismo está cheio de atores mais interesseiros do que interessados. Muitos procurando o aproveitamento em benefício próprio, em vez da entreajuda para crescimento e fertilização mútua dos outros. Num EGOssistema, reina uma competição desenfreada (por vezes uma luta fratricida) em que se pugna por capturar valor e trabalhar para o seu próprio umbigo ou ego, em vez de se colaborar para acrescentar valor aos pares e ao bem comum.

E isto torna-se numa terrível armadilha para os empreendedores pois podemos cair na ilusão de que o Ecossistema tudo resolve, caímos na tentação de confiar que muito nos podem ajudar, e investimos tempo encantados por promessas e propostas que nem sempre são o que parecem ser, frustrando expectativas e prejudicando o desenvolvimento.

E Portugal não é diferente. Temos um ecossistema vibrante que cresce e se expande além-fronteiras, com muita gente interessada, com o coração do lado certo a contribuir e a ajudar. Mas temos também muitas práticas mais interesseiras que interessadas, mais oportunistas e mal-intencionadas que se querem aproveitar dos mais inocentes, criando expectativas erradas ou até mesmo tirando proveito de formas tortuosas.

O desafio que temos é claro: cuidar e garantir que não declinamos num EGOssistema. Regressar à essência e à origem dos valores do ecossistema do empreendedorismo na sua mais pura e romântica visão.

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