O espião russo que saiu do calor para vigiar o Tribunal Penal Internacional

Tal como faziam na guerra fria, os serviços de espionagem russos estão a apostar novamente nos agentes “ilegais”: vivem durante muito tempo noutros países com outras nacionalidades com o objetivo de recolher informação ou de realizar operações ocultas.

epa09910064 Russian President Vladimir Putin meets with Russian Olympic and Paralympic athletes during a state awards ceremony for Russian medal winners of the Beijing 2022 Olympic Winter Games at the Kremlin in Moscow, Russia, 26 April 2022. EPA/YURI KOCHETKOV

É mais um caso que ilustra o poderio e o alcance das agências de espionagem russas em todo o mundo. A máquina russa de espionagem não olha a meios para neutralizar dissidentes, críticos ou opositores ou mesmo para vigiar e sabotar as instituições que se metam no caminho do Kremlin e de Vladimir Putin.

Um espião russo tentou realizar um estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI), localizado em Haia na Holanda.

Sergey Vladimirovich Cherkasov, de 36 anos, pertence ao serviço de inteligência militar GRU (Diretorado do Estado Maior das Forças Armadas da Federação Russa) e usou uma identidade brasileira para tentar obter o estágio.

O homem voou para os Países Baixos em abril acreditando que tinha conseguido o estágio. Quando chegou ao país, foi detido pela guarda fronteiriça neerlandesa e enviado para o Brasil. Se tivesse conseguido o estágio, teria obtido acesso ao sistema do tribunal e aos seus emails, com poder para copiar, alterar ou destruir documentos e provas.

O tribunal encontra-se atualmente a investigar crimes de guerra cometidos pela Rússia este ano na Ucrânia e na Geórgia em 2008. O tribunal tem 200 vagas anuais para estudantes e licenciados em várias áreas como direito ou psicologia social.

O “The Guardian” diz que o espião vai agora enfrentar a justiça brasileira, mas resta saber qual a acusação que enfrenta. O Governo de Bolsonaro ainda não comentou.

O site russo de investigação jornalística “Bellingcat” aprofundou a investigação e descobriu várias contas públicas de Victor Muller no Facebook, Twitter, MyVisaJobs e no seu blog “Politics of Us”.

Em 2010, o espião adotou uma nova identidade no Brasil: Victor Muller Ferreira, com menos três anos de idade. A partir daqui, o espião começou a construir a sua história: passou por vários países, licenciou-se em ciência política no Trinity College de Dublin, entre 2014 e 2018, tirou depois um mestrado em política externa dos EUA na universidade norte-americana de Jonhs Hopkins em 2020.

Os serviços secretos holandeses divulgaram um documento contendo a lenda, a história passada da personagem de um espião, de Victor Muller Ferreira: a sua história até chegar ao Rio de Janeiro em 2010. Por a carta estar expurgada de informação sensível, não é possível verificar qual o país de origem da personagem do espião. Mas no seu perfil de Facebook, refere que estudou numa escola na Argentina, segundo o “Bellingcat”.

O documento explica que o seu pai vivia neste país, onde conheceu a sua mãe. Mais tarde, foram todos para o Brasil. Depois, após a morte da sua mãe, regressou ao seu país de origem com a sua tia, onde ficou a viver e onde andou na escola.

Victor Muller Ferreira decide em 2010 regressar ao Brasil e foi procurar o seu pai ao Rio de Janeiro, tendo referido que se tinha esquecido de falar português, mas a vida em conjunto revela-se difícil; pouco depois, decidiu mudar-se sozinho para Brasília para ter aulas de português para “tentar resolver” os seus “problemas com a cidadania”.

Segundo o “The Guardian”, o passaporte russo de Cherkasov revela que está registado no enclave de Kalinigrado, tendo sido co-proprietário de uma empresa de construção local com 19 anos.

Os serviços de inteligência dos Países Baixos AIVD (Algemene Inlichtingen- en Veiligheidsdienst) disseram em comunicado que este tipo de agente é conhecido por “ilegal: um agente de inteligência que recebe um longo e extenso treino. Devido às suas identidades falsas, os ilegais são difíceis de descobrir. Por isso, permanecem muitas vezes por detetar, permitindo que desenvolvam as suas atividades de inteligência. Por se apresentarem como estrangeiros, têm acesso a informação que seria inacessível a cidadãos russos. Além da GRU, também o serviço de inteligência russo SVR usa ilegais”. A SVR são os Serviços de Inteligência Estrangeira da Federação Russa.

“O foco principal da GRU é a recolha de inteligência militar, mas também recolhe informação política ou tecnológica. O GRU não recolhe apenas informação, os seus agentes também desenvolvem operações ocultas de influência”, acrescenta a AIVD.

“Os serviços de inteligência russos gastam anos a construir lendas para os ilegais”, segundo a AIVD que destaca: “a identidade de um ilegal é geralmente muito complexa e difícil – se não impossível – para estranhos a verificarem. A história contém uma combinação de informação autêntica e impressões pessoais (possivelmente fabricadas).

Os serviços de inteligência russos “recolhem informação sobre, por exemplo, como outros países registam e armazenam dados pessoais”, e também falsificam documentos de identificação.

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