O “expansionismo” chinês

O comportamento dos EUA, na sua curta existência, foi diametralmente oposto ao da China, que na sua vida milenar mostrou relutância em usar a opção militar em primeiro lugar.

O combate à ameaça percebida colocada pela China aos EUA será, porventura, o único assunto que faz as elites políticas americanas cerrar fileiras, tanto democratas como republicanas. A peleja prolongar-se-á para lá da Administração Trump. Foi interiorizada como um desafio existencial. Nunca a campanha antichinesa nos EUA foi tão virulenta.

A campanha contra o “vírus chinês” insere-se naquele combate, mas numa lógica de curto prazo – eleições americanas –, sendo por isso menos importante. A China é apresentada como a maior ameaça ao modo de vida americano, sendo acusada de ter um comportamento militar provocador. A China e a Rússia procuram criar um mundo à imagem do seu modelo autoritário, diz-se e escreve-se em Washington.

Estas afirmações são graves e merecem ser contraditadas. Questionamos a sua verosimilhança. Porque, ao contrário dos EUA, que se auto-encarregaram da messiânica e espinhosa tarefa de espalhar a liberdade, a democracia e os valores universais pelo mundo – a excecionalidade americana –, a China não pretende promover globalmente a sua civilização, muito menos impô-la aos demais Estados. Não impôs a si própria a missão de criar um mundo à sua semelhança, um mundo comunista. Já lá vai o tempo em que a China patrocinava movimentos subversivos no Terceiro Mundo. Esse tempo acabou há muito.

A convicção inabalável de que o mundo seria um lugar melhor se a humanidade aderisse e implementasse os valores americanos dá pretexto a Washington para impor a sua cosmovisão aos outros, recorrendo à “persuasão militar”, sempre que tal se revele necessário. O cumprimento dessa prosélita missão foi responsável pelo envolvimento dos EUA em mais conflitos militares do que qualquer outro Estado. Sobre esta matéria, o comportamento dos EUA, na sua curta existência, foi diametralmente oposto ao da China, que na sua vida milenar mostrou relutância em usar a opção militar em primeiro lugar. A China não travou uma única grande guerra nos últimos 40 anos.

São conhecidas as diferenças entre a ética confucionista e protestante. A civilização chinesa não é, nem foi, militarista nem expansionista. Se o fosse teria conquistado os territórios vizinhos. A Austrália não teria sido colonizada por potências europeias. Mas não o fez. Não por incapacidade militar, mas por idiossincrasias culturais. Ao contrário dos EUA, que quando confrontados com um desafio estratégico privilegiam o emprego da força militar, os chineses evitam as opções militares. A China não recorrerá aos meios militares como primeira expressão de poder, como, aliás está bem evidente no “White Paper” de 2019, onde se prioriza a salvaguarda da soberania e da integridade territorial nacional.

Desmonta-se com alguma facilidade a falácia argumentativa do “perigo amarelo” e da ameaça direta, física, existencial da China à América e ao modo de vida americano. Muitos outros argumentos poderiam ser adicionados. Igualmente grave são as caixas de ressonância que proliferam, nomeadamente em Portugal, e se prestam a alinhar nesta propaganda insana.

Estranhamente, nenhum delas alerta para a precariedade da manobra americana. Estamos ainda sem perceber onde é que Washington quer chegar. Está a envolver-se numa competição, sem antes ter desenvolvido uma estratégia global e abrangente sobre como pretende lidar com a China.

Recomendadas

Mudar o futuro coletivo

Os professores devem assumir um papel ativo nas novas abordagens pedagógicas. Só desta forma será possível responder às questões de fundo do século XXI.

O Orçamento do Estado para 2023 e as empresas

A proposta de Orçamento do Estado para 2023 vai ser conhecida no próximo mês e os temas relacionados com as empresas prometem ser um dos pontos fortes do documento, a começar por uma eventual descida do IRC.

Precisamos de notícias positivas

Os gestores têm de pensar se querem mais dívida dentro das empresas quando se espera uma redução da atividade económica no próximo ano
Comentários