O futebol está doente e os adeptos também são responsáveis

Numa altura em que os critérios ESG assumem cada vez mais importância, como é que marcas sérias e crédiveis podem continuar a investir milhões numa indústria onde abundam as suspeitas de corrupção?

O país futebolístico entrou recentemente em comoção por causa de um jogo entre o Benfica e o Belenenses, onde de facto aconteceu algo que não devia suceder. Durante vários dias não se falou de outra coisa, com dirigentes e comentadores a exigirem um apuramento de responsabilidades.

De facto, o que aconteceu nesse jogo foi escandaloso, ao ponto de o nosso país ter sido notícia na imprensa internacional. Agora imaginemos como seria se existissem suspeitas de corrupção generalizada no futebol português, em coisas como transferências de jogadores e outros negócios da ‘bola’, envolvendo os líderes de vários grandes clubes. Felizmente isso não existe em Portugal, como sabemos!

Evidentemente estou a ser irónico. Até porque os factos são claros. Nos últimos anos, os líderes dos três maiores clubes nacionais têm estado na mira da Justiça: Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, foi forçado a deixar a liderança dos Leões após anos de comportamentos erráticos e histriónicos, ao ver-se envolvido no triste episódio da invasão do centro de treinos da equipa. No Benfica, Luís Filipe Vieira foi obrigado a demitir-se na sequência de ter sido detido e constituído arguido pela prática de alegados crimes financeiros. E Jorge Nuno Pinto da Costa, o eterno presidente do Futebol Clube do Porto, está na mira da Justiça igualmente por esse tipo de suspeitas. Nos três casos, os clubes terão sido lesados pelos seus dirigentes. Tudo isto será, no entanto, apenas a ponta do icebergue, porque há outros clubes ensombrados por casos judiciais.

Há várias décadas que o futebol deixou de ser um jogo de cavalheiros assente em regras de fair play que constituiam o ideal de conduta de um mundo que já não existe. Mas nos últimos anos a situação agravou-se muito devido aos milhões que circulam nos negócios à volta do desporto, devido aos lucrativos direitos de transmissão, da publicidade, das transferências de jogadores e da compra e venda de imobiliário de clubes falidos.

A triste verdade é que, com algumas notáveis exceções, o futebol é hoje um negócio em larga medida dominado por gente pouco recomendável, com fraca governance, práticas pouco transparente e demonstrações contabilísticas em larga medida fictícias. É um negócio com empresas em falência técnica, onde os funcionários (jogadores) entram no balanço como se fossem escravos das plantações do século XVIII, para mais com valores astronómicos que ninguém sabe bem como são calculados e com entradas de capital vindo não se sabe bem de onde. O mais curioso é que, face a isto, os supervisores permitem que entidades ligadas ao futebol sejam cotadas em bolsa e emitam títulos de dívida, como se fossem empresas como as outras.

Porém, estamos prestes a entrar em 2022, ano em que os temas de sustentabilidade ambiental, social e corporativa (ESG) vão assumir crescente importância. Até quando irão marcas que se querem sérias e credíveis vão continuar a investir milhões numa indústria onde não existe transparência e abundam as suspeitas de corrupção?

A indústria do futebol só terá futuro se a boa moeda – que, repito, existe – conseguir expulsar a má e se os adeptos, os sócios dos clubes e os acionistas das SAD, que foram ludibriados durante anos, assumirem finalmente as suas responsabilidades. Até porque se os adeptos se importassem realmente, não haveria dirigentes corruptos “bem sucedidos”.

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