O futuro negro do AC Milan

As dúvidas em torno da real capacidade financeira do novo dono do clube Li Yonghoon, e a ameaça da aplicação sanções por parte da UEFA, ensombram um futuro que ainda há poucos meses parecia risonho.

Para qualquer adepto do AC Milan que tenha tido a sorte de ver o seu clube entre o final dos anos 80 e a primeira década deste século, o que hoje em dia se passa com os rossoneri seria inconcebível.

Ao longo desses anos, detido por Silvio Berlusconi e gerido por alguns dos mais capazes diretores de futebol do mundo, o clube de Milão esteve sempre no topo do futebol italiano e europeu. Primeiro com Arrigo Sacchi no banco, depois com Fabio Capello e finalmente sob o comando de carlo Ancelloti, o Milan ganhou inúmeros campeonatos de Itália, e várias Ligas dos Campeões. Mas quando o antigo primeiro-ministro italiano começou a enfrentar problemas legais e dificuldades financeiras, o seu clube não conseguiu evitar o mesmo destino. Nos últimos anos, o outrora gigante nem tem conseguido qualificar-se para as competições europeias, e os triunfos das equipas onde brilhavam jogadores como Paolo Maldini, Marco van Basten, Ruud Gullitt, Frank Rijkaard, Roberto Donadoni, Andrea Pirlo, Kaká ou Rui Costa não passam agora de distantes memórias.

Em maio, o clube foi comprado por Li Yonghong, um empresário chinês vagamente desconhecido e de reputação duvidosa, com um empréstimo de 300 milhões de dólares do fundo privado americano Elliot Management. De repente, os adeptos do Milan viram uma luz ao fundo do túnel onde estavam parados. A pré-época trouxe consigo a contratação de Leonardo Bonucci, vindo de anos de conquistas ininterruptas pela Juventus. Ricardo Rodriguez, um lateral esquerdo adorado pelos fanáticos das estatísticas avançadas, foi contratado ao Werder Bremen. Franck Kessié foi comprado ao Atalanta. O português André Silva foi levado do Porto. E talvez de forma mais simbólica, Gianluigi Donnarumma, um jovem guarda-redes de 18 visto como a cara do futuro rossonero, renovou o seu contrato. Li trouxera dinheiro; com ele, vieram jogadores; com os jogadores, veio esperança.

Não durou muito. Quando os jogos começaram, os resultados não foram bons. O treinador que iniciou a temporada, Vincenzo Montella, foi despedido no final de novembro, substituído pelo ex-jogador da casa Gennaro Gattuso, praticamente sem experiência como treinador. E á entrada para a jornada deste fim-de-semana, o clube está no oitavo lugar da tabela da Liga italiana, a 18 pontos do líder, o seu vizinho e cohabitante no estádio de San Siro, Inter.

E para piorar as coisas, Li Yonghong poderá estar à beira de ter de abrir mão do clube que comprou há meses.

Quando contraiu o empréstimo com o Elliot Management, Li comprometeu-se a pagá-lo até Outubro de 2018. Mas dadas as elevadas taxas de juro sobre o empréstimo, já de si bastante avultado, e, como disse ao The Ringer Chris Anderson, autor do livro The Numbers Game e consultor de investimentos, a “falta de transparência” quanto à fonte da riqueza de Li e à sua real dimensão – o dono do Milan não está na lista dos 400 mais ricos da China e as minas de fosfato que de acordo com a biografia oficial lhe dão fortuna não são detidas por si – “a questão não parece ser a de se o senhor Li vai sair, mas a de quais as condições em que vai abrir mão de algum ou de todo o controlo” sobre o clube.

No processo da compra, Li terá falhado vários dos pagamentos com que se comprometera com os antigos donos do clube. Terá sido essa a razão, aliás, pela qual teve de recorrer ao empréstimo do Elliot Management. Agora que precisa de pagar esse empréstimo de volta, Li parece mesmo não ter o dinheiro que, afinal, talvez nunca tenha tido.

“Só há dois cenários nos quais uma pessoa quererá pedir dinheiro emprestado ao Elliot”, escreveu o jornalista Gabrielle Marcotti: “um é se a pessoa está 100% segura de que vai poder pagar o empréstimo ou refinanciá-lo; o outro é se a pessoa está desesperada e mais ninguém lhe dá o dinheiro”. Dada a pouca informação sobre Li, e a que existe ser pouco reconfortante, Marcotti suspeita que o verdadeiro seja o segundo.

Sem um dono que injete dinheiro próprio nos cofres do clube, o Milan terá de depender de outras fontes de rendimento, como as bilheteiras, vendas dos direitos de transmissão televisiva ou de equipamento desportivo. “A marca Milan” diz Anderson, “ainda é comercialmente forte”, e “curto prazo” o clube “ficará bem”. Mas se não se conseguir qualificar para as competições europeias – ficando nos seis primeiros lugares do campeonato ou vencendo a Taça de Itália – o Milan não receberá os milhões que uma tal participação traz. “Essa é uma quantidade de dinheiro realmente significativa com a qual eles presumivelmente contavam nas suas projeções financeiras”, diz Anderson. Sem essas verbas, avisa, “os problemas vão surgir”.

Na realidade, já estão a surgir. A UEFA, a instituição que supervisiona o futebol europeu e organiza as competições entre clubes e selecções no continente, pondera castigar o Milan pela violação das suas regras de “fair-play” financeiro, que determinam que um clube terá um teto de despesas em linha com as suas receitas, não podendo acumular dívida. Por ter sido adquirido por um novo dono, o Milan poderia candidatar-se a um “acordo voluntário” com a UEFA que lhe permitiria ultrapassar esse teto temporariamente.  No entanto, segundo a Gazetta dello Sport, esta hipótese estará a ser analisada pela UEFA, que anunciará a sua decisão na próxima semana, sendo esperada a rejeição da proposta. A razão da decisão estará na “falta de crédito” do “plano de desenvolvimento e consolidação” das finanças do Milan apresentadas pela direção do clube, e de “fiabilidade e consistência de capital” de Li.

Caso tal se confirme, o Milan será mesmo sujeito a sanções, o que dificultará ainda mais o pagamento do empréstimo com que Li adquiriu o clube. Nesse caso, o Elliot managemnet tomaria conta do clube, o que o CEO do Milan, Marco Fassone, considera ser “o pior cenário possível”.

Como escreve Marcotti, a venda dos jogadores cuja chegada este verão trouxe esperança aos adeptos do clube seria inevitável, e com a sua saída, o regresso aos tempos dourados de há 30, 20 ou 10 anos atrás parecerá cada vez mais improvável.

Recomendadas

Vieira diz que divulgação de emails foi “estratégia do FC Porto para manchar nome do Benfica”

O antigo presidente do Benfica Luís Filipe Vieira afirmou hoje em tribunal que a divulgação de emails sobre o clube no Porto Canal foi “uma estratégia do FC Porto para manchar o nome” do clube lisboeta.

JE Podcast: Ouça aqui as notícias mais importantes desta terça-feira

Da economia à política, das empresas aos mercados, ouça aqui as principais notícias que marcam o dia informativo desta terça-feira.

“Jogo Económico”. “Não acredito que vamos banir a violência no futebol”, defende especialista

Vêm aí novas leis destinadas ao combate da violência no desporto e nesta edição, vamos conhecer ao detalhe as medidas que estão a ser preparadas para o Governo e perceber se se adequam à realidade do fenómeno em Portugal. Daniel Seabra, antropólogo e professor universitário com obra publicada sobre o fenómeno das claques em Portugal, foi o convidado da última edição do “Jogo Económico”.
Comentários