O grande Houdini

Houdini ficaria muito orgulhoso de ter um discípulo como Costa, que recebeu um país à beira do precipício, descrente, desmotivado, e fez dele um ‘case study’ em apenas 12 meses.

Considerado quase unanimemente o maior mágico de todos os tempos, Erik Weisz, que ficou mundialmente famoso como Harry Houdini, tem, agora, um rival à altura.

O português António Costa, líder da geringonça, tem-se mostrado, no decurso do último ano, capaz de fazer uso dos maiores truques que é possível imaginar, conseguindo alcançar o impensável: gerar consensos entre a troika que suporta o Governo, serenar os sindicatos, fazer aprovar dois orçamentos do Estado, conviver alegremente com o Presidente da República, levar Portugal à vitória no Europeu de 2016, repor os rendimentos de que a classe trabalhadora havia sido espoliada pela quadrilha liderada por Pedro e Paulo, agradar às instituições europeias, convencer a DBRS a manter o rating da República, reduzir o desemprego, cumprir a meta do défice orçamental, aumentar a confiança dos portugueses, crescer significativamente nas sondagens, etc., etc., etc.

Há um ano atrás ninguém esperaria que fosse possível que o segundo classificado na corrida das legislativas pudesse fazer da geringonça um tamanho sucesso. Capaz de formar com Catarina e Jerónimo uma Santíssima Trindade, Costa revelou-se neste ano um político astuto, ainda que o seu antecessor, José Sócrates, o continue a apelidar de principiante. Mas, mais do que isso, soube ir tirando da cartola sucessivos números de magia que eram inimagináveis ainda há pouco tempo.

Na realidade, deu ao Bloco de Esquerda um protagonismo de que este estava sedento, ao Partido Comunista um conjunto de benesses capazes de acalmar a feroz CGTP, repôs os rendimentos da função pública, aumentou os pensionistas, fez a TAP voltar à esfera do Estado, reverteu as concessões dos transportes, repôs os feriados. Numa palavra, conseguiu fazer a quadratura do círculo. Houdini ficaria, certamente, muito orgulhoso de ter um discípulo como Costa, que recebeu um país à beira do precipício, descrente, desmotivado, entregue à triste sina de ser português, e fez dele um case study em apenas 12 meses. António Costa deve, assim, ser considerado uma figura ímpar no cenário internacional, capaz de transformar água em vinho, de multiplicar pães e peixes, algo que só Cristo tinha conseguido alcançar.

Felizes são os portugueses por disporem de um líder desta envergadura, capaz de converter um crescimento económico anémico num sucesso internacionalmente invejável, de fazer da queda abrupta do investimento público uma oportunidade para o crescimento do investimento privado, de apontar a diminuição do investimento externo como uma garantia de que empresas e setores vitais ficam em mãos portuguesas, de explicar que os impostos indiretos são afinal socialmente mais justos do que os impostos diretos, de considerar que os gestores da CGD devem auferir salários milionários para gerirem melhor do que geriam os seus antecessores, de desresponsabilizar financeiramente os autarcas pelas irregularidades que os mesmos venham a cometer, de não demonstrar preocupação pela explosão contínua da dívida pública, que já superou os 133% do PIB.

Costa é, sem dúvida alguma, um homem esperto, mas, mais do que isso, é um mágico, capaz de seduzir uma plateia que diariamente o aplaude e vê nele um novo D. Sebastião, capaz de, volvidos 438 anos, conquistar Alcácer-Quibir. Queira Deus que, desta vez, o desenlace possa ser mais feliz e não fiquemos na situação que, face à ruína financeira da Coroa portuguesa e à independência nacional ameaçada, Camões descreveu a D. Francisco de Almeida: “Enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela”.

 

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