“O ISCAL tem de reforçar o papel no processo de capacitação das empresas portuguesas”

O crescimento da instituição passa por formação não conferente de grau, que contribua para a capacitação das empresas, pela inovação pedagógica e pela internacionalização da oferta formativa. As prioridades de Pedro Pinheiro para o mandato até 2026 incluem a investigação.

Aí estudou, aí ensina. Pode dizer-se que Pedro Pinheiro conhece os cantos à casa como ninguém. A casa é o Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (ISCAL), herdeiro da Aula do Comércio, criada por Marquês de Pombal em 1759.

Professor na área da Contabilidade e Auditoria, fez o bacharelato em Contabilidade e Administração e formou-se em Controlo Financeiro. Só saiu do ISCAL para fazer o mestrado em Gestão com especialização em Finanças na Universidade de Évora e, depois, o doutoramento em Gestão na Universidade Lusíada de Lisboa. É autor de livros técnicos sobre a normalização contabilística nacional e angolana e de artigos técnicos e científicos publicados em revistas e apresentados em conferências, nacionais e internacionais. Nesta entrevista, Pedro Pinheiro, o novo presidente do ISCAL, fala-nos do legado da instituição, mas também da importância da inovação, revela as prioridades para o mandato que vai até abril de 2026, e adianta as principais novidades para o próximo ano letivo.

O que é o ISCAL? Quantos alunos tem?
O ISCAL é hoje uma instituição de ensino superior moderna e voltada para o futuro, que teve a sua génese há mais de 250 anos e que tem procurado consolidar o seu lugar na sociedade, através da qualidade da formação, da investigação e das atividades de extensão à comunidade. Relativamente ao número de estudantes são hoje cerca de 3.500, de mais de 35 nacionalidades diferentes, repartidos por cinco licenciaturas e sete mestrados nas áreas das ciências empresariais e das ciências jurídicas.

Ainda subsiste o ADN inovador da Aula de Comércio criada no século XVIII pelo Marquês de Pombal de que o ISCAL é herdeiro?
Indiscutivelmente, esse ADN ainda faz parte da essência do que é o ISCAL e da forma como o processo de ensino e aprendizagem é encarado. Mais de dois séculos volvidos, a preocupação com o saber fazer, com a preparação dos estudantes para o mercado de trabalho e com a interligação com a sociedade continuam a ser traços distintivos da instituição. A este ADN foi adicionada uma sólida componente científica que conduziu a que, atualmente, o ISCAL seja amplamente reconhecido pela qualidade dos seus diplomados. No entanto, não podemos considerar que este legado seja suficiente, por si só, para sustentar a imagem do ISCAL no longo prazo. Apenas mediante o reconhecimento nacional e internacional, pela excelência da sua investigação, pela excelência da formação e pela capacidade de transferir para a sociedade o conhecimento gerado é possível continuar a disseminar o referido ADN inovador.

Na tomada de posse disse que o único ponto que o vai nortear ao longo destes quatro anos “é a melhoria contínua do ISCAL”. Melhoria em que sectores?
O processo de melhoria contínua tem, em qualquer organização, de ser encarado como fundamental para a existência de um crescimento sustentado, daí que tenha referido este aspeto enquanto traço orientador. Ao longo dos últimos anos foi efetuado um trabalho meritório relativamente ao reposicionamento do ISCAL e são essas as bases para a implementação da melhoria contínua referida.

Em linhas gerais, o que se pode esperar da sua presidência? Quais são as prioridades para o mandato?
Aqueles que me conhecem sabem que sou um entusiasta do desenvolvimento do ISCAL com uma forte preocupação com as pessoas, o seu bem-estar e o seu desenvolvimento. Estas são as premissas para um mandato cujas perspetivas passam pelo crescimento contínuo do ISCAL e pela sua consolidação no seio do ensino superior, num contexto marcado pelos desafios trazidos pela pandemia, pela transformação digital e pela instabilidade económica. Além destes desafios, conforme tenho tido oportunidade de referir, a necessidade de encarar as pessoas como o ativo mais valioso da instituição não pode ser subestimada, daí decorrendo a necessidade de fomentar uma cultura em que todos os agentes académicos possam, em conjunto, desenvolver-se e desenvolver o ISCAL num conjunto variado de áreas. De entre estas, as áreas da formação não conferente de grau, da inovação pedagógica, da internacionalização da oferta formativa, da investigação e da consolidação da relação com os diferentes stakeholders são aquelas que considero como áreas de intervenção prioritária.

Há novidades na forja para o próximo ano letivo?
Acredito que o ano letivo 2022/2023 ficará marcado pela forte expansão da oferta formativa não conferente de grau. Contamos efetuar o lançamento de mais de uma dezena de cursos, em parceria com um conjunto vasto de entidades. Os perfis formativos foram pensados e desenhados tendo em consideração as reais necessidades da sociedade onde nos inserimos, ou seja, não pretendemos lançar oferta formativa em áreas em que já exista excesso de oferta, mas antes, tendo por base o tal ADN que foi referido, apresentar oferta formativa inovadora e contribua para um real reskilling e upskilling dos estudantes que frequentam os cursos.

Assim, serão apresentadas propostas formativas que se pretendem diferenciadoras, em áreas relacionadas com a contabilidade, a fiscalidade, a sustentabilidade, a gestão, a prática jurídica, entre outras.

Como se posiciona a oferta para responder aos novos tempos e em concreto aos desafios da digitalização e da sustentabilidade?
Ao nível da oferta formativa de primeiro e de segundo ciclo tem de existir uma preocupação constante com a atualização dos programas das unidades curriculares, procurando deste modo, que estes reflitam e possam dar resposta aos desafios que vão sendo colocados do ponto de vista societário.

Ao nível dos cursos não conferentes de grau, o ISCAL procurará sempre ir ao encontro das necessidades do meio em que se insere, acompanhando as tendências e os desafios que as empresas e sociedade enfrentam.

Nas áreas de conhecimento em que tendencialmente operamos, o impacto de aspetos como a transformação digital e a sustentabilidade serão imensos e, como tal, para que possamos preparar, de forma competente, aqueles que serão agentes de mudança, temos de ter especial atenção à constante atualização dos perfis formativos que oferecemos.

Existem alunos estrangeiros no instituto? De onde são?
Existem cerca de 500 estudantes de 37 nacionalidades diferentes a estudar no ISCAL, no presente ano letivo. Estes dados referem-se a estudantes internacionais, estudantes em programas de mobilidade e outras tipologias de estudantes. As principais nacionalidades são, como seria expectável, de países da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa], seguidos da Alemanha, Polónia, França, Eslováquia, Ucrânia e República Popular da China, entre outros.

Como se posiciona o ISCAL no campo da mobilidade com instituições dentro e fora do espaço europeu?
A mobilidade académica é hoje um especto indissociável de qualquer realidade académica e o ISCAL não foge à regra, tendo hoje cerca de duas centenas de estudantes em programas de mobilidade em instituições espalhadas por mais duas dezenas de países. Estes programas permitem aos estudantes não apenas complementar a sua formação do ponto de vista técnico e científico, mas também incrementar o seu processo de desenvolvimento pessoal, sendo estas experiências muito valorizadas na abordagem ao mercado laboral.

Que papel desempenha o Instituto na capacitação das empresas portuguesas?
O Instituto tem de reforçar o seu papel no processo de capacitação das empresas portuguesas, todavia este caminho tem sido assumido pelo ISCAL como fundamental e tem vindo a ser trilhado. As instituições de Ensino Superior têm de assumir que a proximidade às empresas portuguesas é um fator crítico de sucesso para o cumprimento pleno da sua missão. Assim, relativamente aos programas de reskilling e upskilling, o ano letivo de 2022/2023 trará um conjunto vasto de novidades nesta temática.

Em que medida o combate à corrupção passa por escolas como o ISCAL?
O combate à corrupção é um fenómeno que necessita de uma resposta mais abrangente e articulada que não passará apenas pelas instituições de ensino superior. No entanto, claramente que instituições como o ISCAL devem desempenhar um papel ativo neste combate, não apenas pelas áreas de formação em que opera, mas acima de tudo pelo seu papel enquanto entidade responsável pela formação de gerações futuras. Pretendemos associar uma preparação técnica e científica sólida a uma formação pessoal associada a conceitos de cidadania, sustentabilidade, ética e comunicação, entre outros. Logo, dada às áreas científicas em que operamos, temos uma responsabilidade acrescida e temos feito um esforço para que os programas das unidades curriculares e as atividades extracurriculares possam refletir essa mesma importância.

O ISCAL tem em construção um edifício no campus de Benfica do Politécnico de Lisboa, ao qual pertence. Qual é o ponto da situação do projeto?
A construção do novo edifício consideramos ser um aspeto fundamental para o desenvolvimento pleno das nossas atividades e como tal temos colocado todo o empenho na conclusão deste processo. Neste momento existem alguns constrangimentos orçamentais que trabalhamos diariamente para ultrapassar, de modo que a construção se possa iniciar ainda no presente ano letivo.

Elmano Margato, presidente do Politécnico de Lisboa, disse-nos que o edifício da Avenida Miguel Bombarda será transformado em residência universitária. Está a avançar?
Relativamente ao edifício da Avenida Miguel Bombarda, a decisão acerca do destino a ser dado às instalações não depende da presidência do ISCAL, todavia, entendemos que estas poderiam ser transformadas num espaço com múltiplas valências que permitam suprir um conjunto mais vasto de necessidades, do que apenas a construção de residências universitárias. Ainda assim, repito que a decisão não passa pelo ISCAL e, como tal, podemos apenas apresentar soluções alternativas para serem consideradas no processo de decisão.

Como perspetiva o futuro do ensino politécnico em Portugal?
A questão do sistema binário de ensino superior vigente em Portugal continua a ser uma questão alvo de ampla discussão. O subsistema de ensino politécnico, por mérito próprio, demonstrou ao longo do tempo a sua importância no contexto da sociedade portuguesa e como tal antevejo-lhe um futuro promissor. Obviamente que este exercício de futurologia estará sempre condicionado pelas opções que, do ponto de vista legislativo e orçamental, sejam efetuadas pelos sucessivos governos. Não considero plausível e tenho dificuldade em compreender que se continue a diferenciar negativamente, em muitos aspetos, um subsistema face ao outro, quando a contribuição para a sociedade portuguesa é efetuada por ambos e muitas vezes de modo já indistinto.

Discussões em torno da necessidade de repensar sistema binário, da desigualdade de oportunidades entre subsistemas ou da especificidade de cada um deles não se podem suplantar a necessidade de cada vez afirmar o ensino superior português como um hub de inovação e um espaço de criação de conhecimento de excelência.

Acima de tudo, considero importante continuar a afirmar Portugal e as instituições de ensino superior portuguesas no contexto internacional e é, tendo por base esta visão, que o ISCAL irá encarar os próximos quatro anos.

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