O lítio e a liberdade energética europeia

Para que o dólar perca o seu papel central não basta que os seus fundamentais se deteriorem – outra divisa terá de o superar naquilo que ele oferece

A inflação energética e a ameaça real de interrupção do fornecimento de combustíveis fosseis vieram mostrar que não sabemos viver sem liberdade energética.

A guerra na Ucrânia e o poder de mercado da Rússia – enquanto produtor e distribuidor de gás natural – deixaram a Europa num estado de alerta, senão de emergência. O ambiente e a economia apontam o único caminho possível: descarbonizar drasticamente e em larga escala para, rapidamente, obter autonomia e independência energética.

O lítio é o mais leve dos metais, não-poluente, não-tóxico e não prejudicial para a saúde humana. Entre inúmeras utilizações, o lítio é essencial para armazenar energia limpa em baterias, para as telecomunicações e para descarbonizar o sector dos transportes.

É incompreensível que quando a investigação e desenvolvimento apontam avanços tecnológicos para a resolução de problemas, isso não seja aproveitada por todos.

Portugal tem uma enorme vantagem competitiva: as maiores reservas de lítio conhecidas na Europa ocidental. A realidade é que pode ser um líder Europeu no fornecimento desta matéria-prima crítica para as próximas três décadas, se quiser. Portugal conta com geólogos e engenheiros experientes, tecnologia e investidores interessados – e não faz sentido que um recurso desta escala e magnitude não possa ser aproveitado. É uma oportunidade única.

A história da lítio português deve ser escrita a três mãos: comunidades, governo e empresas.

Os investidores, como a Savannah, podem transformar este recurso numa atividade rentável e fazer dela um exemplo mineiro responsável ambiental e socialmente, retirando benefícios com o menor impacto possível. Mas há lugar para outras empresas numa cadeia de valor, que permite reter riqueza no país.

Ao governo compete criar condições para reter uma longa cadeia de valor nacional: desde a extração do minério, passando pela refinação, pelo fabrico de células de lítio, pela construção de baterias de lítio e, por fim, pela sua reciclagem, há imensas oportunidades para criar riqueza.

Mas um dos capítulos chave nesta história é sobre a população e as autoridades de cada região onde existem reservas de lítio economicamente viáveis. As populações devem estar na linha da frente dos benefícios gerados pelos projetos de lítio. Mas devem ser também as primeiras a acompanhar os projetos, com acesso a monitorização do desempenho das empresas e do cumprimento das normas ambientais. Só assim conseguirão fixar, na sua região, os investidores mais capazes, mais credíveis e mais empenhados no bem comum. Trata-se de cidadania, da defesa do bem comum e de desenvolvimento regional.

Até hoje, ninguém inventou nada melhor que a energia. É o que nos permite mover, comunicar, trabalhar, viver. No mundo atual, podemos dizer que tudo é energia. Mas as fontes de energia não são inesgotáveis, nem totalmente inofensivas para o ambiente. As energias “limpas”, como a solar ou a eólica, também têm problemas de armazenamento que dificultam a ininterruptabilidade. A busca por formas sustentáveis de energia, para o ambiente e para a economia, tem sido um dos maiores desafios da tecnologia e da ciência.

É aqui que entra o lítio. É aqui que pode começar uma história de sucesso para Portugal.

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