O motor da mudança não são os políticos

Inspirou-me a leitura recente do livro the Breaktrough Challenge. Escrito por John Elkington, autor da expressão “Triple Bottom Line” – os três pilares que devem nortear a gestão empresarial na economia de hoje (social, económico e ambiental) e por Jochen Zeitz, CEO da Puma, é um apelo inspirador e um guia prático para a ação, […]

Inspirou-me a leitura recente do livro the Breaktrough Challenge. Escrito por John Elkington, autor da expressão “Triple Bottom Line” – os três pilares que devem nortear a gestão empresarial na economia de hoje (social, económico e ambiental) e por Jochen Zeitz, CEO da Puma, é um apelo inspirador e um guia prático para a ação, que explora as várias componentes práticas do “triple bottom line” na criação de valor e na rentabilidade de um negócio no longo-prazo.
Ao longo das entrevistas e dos exemplos práticos que compõem esta obra, torna-se clara a necessidade urgente de repensar a forma de fazer negócios, adoptando uma perspetiva holística que contemple várias dimensões, nomeadamente:
– Criar uma nova definição de rentabilidade.
– Explorar novas formas de capital e de geração de valor, usado números e algoritmos que não fazem parte do léxico tradicional de analistas financeiros e CFO. Na obsessão do lucro pelo curto-prazo, os impactos negativos que esta lógica gerou para o planeta, o meio-ambiente e o bem estar das pessoas, não têm sido incorporados nos balanços contabilísticos, o que já provou ser um erro. A contabilidade precisa de mostrar muito mais do que ganhos e perdas financeiras.
– Criar novos incentivos ao desempenho nas organizações.
– Integrar na gestão, métricas que contemplam a saúde e o bem-estar dos indivíduos, comunidades e ecossistemas.
– Preparar líderes com uma nova consciência.
– Favorecer os negócios que aprendem com as leis da natureza, em sintonia com os movimentos e tendências da emergente economia circular.
Do meu ponto de vista, devemos acrescentar a estes tópicos a adoção de uma nova linguagem de gestão, mais alinhada com os pressupostos da nova economia. Na linguagem utilizada no mundo dos negócios, ainda predominam as metáforas de guerra. Ora se por um lado, a linguagem é uma forma de expressão, também nos pode limitar, conduzindo e condicionando a atuação de toda uma geração de líderes.
Para o multimilionário inglês Richard Branson, empresários e executivos podem promover mais mudanças do que os políticos. Motivado por esta crença, criou o B Team, juntamente com Jochen Zeitz, ex-presidente da Puma. Este grupo reúne líderes empresariais globais, organizações não governamentais e empreendedores. Paul Polman, CEO da Unilever, Ratan Tata do Grupo Tata, Adrianna Huffinghton, do influente website Huffington Post, François Henri Pinault, CEO da holding francesa Kering, detentora de grandes lojas e marcas de luxo; o Nobel Muhammad Yunnus, fundador do banco de microcrédito Grameen; a ex-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland. John Elkington autor do livro que refiro neste artigo, são algumas das personalidades que se juntaram a esta iniciativa. Unidos para sensibilizarem governos e multinacionais a adotarem novos paradigmas e a trocarem as metas de curto-prazo por estratégias que incorporem as preocupações sócio ambientais.
“Não devemos responsabilizar apenas políticos e organizações sociais para lidar com os problemas do mundo – as empresas também deveriam ajudar”, defende Branson. Muitas empresas tomam iniciativas importantes individualmente – mas podem ter mais força e ter um impacto maior se atuarem coletivamente.”
O B Team pretende disseminar o lema da multinacional alemã – empresas devem ser “justas, honestas, positivas e criativas” – e concentrar-se em três frentes: instituir a contabilidade dos impactos sócio ambientais (positivos e negativos) das empresas; desenvolver incentivos e subsídios para práticas sustentáveis; e discutir o perfil das lideranças globais.
Acredito que, se conseguirmos fazer com que todas as empresas usem sua força para promover o bem, poderemos solucionar a maioria dos problemas do mundo. E essa é a visão do B Team. Afinal, uma sociedade saudável só pode existir numa economia saudável.

Sofia Costa Quintas
CEO da Ask For Alchemy

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