O mundo de Salgado

Ricardo Salgado nunca acreditou que alguma coisa pudesse acontecer-lhe a si e ao grupo que dirigia. Nunca equacionou que o grupo pudesse falir, que uma parte do banco fosse expropriada, que deixasse de ostentar “Espírito Santo” nas fachadas, que a família pudesse algum dia deixar de mandar ali. A exclusiva versão dos factos que apresentou […]

Ricardo Salgado nunca acreditou que alguma coisa pudesse acontecer-lhe a si e ao grupo que dirigia. Nunca equacionou que o grupo pudesse falir, que uma parte do banco fosse expropriada, que deixasse de ostentar “Espírito Santo” nas fachadas, que a família pudesse algum dia deixar de mandar ali.
A exclusiva versão dos factos que apresentou à Comissão Parlamentar de Inquérito é a primeira peça da sua defesa para o que aí vem de processos das entidades de supervisão e inquéritos judiciais. Está ali a sua narrativa, a sua versão, os pilares do que vai argumentar em sua defesa: não mandei fazer, não vi, não ouvi, não sabia, não fui informado e quando percebi que alguma coisa estava a correr mal as autoridades não me deram tempo para resolver. Nem dinheiro.
Nem com boa vontade se admite que possa ter sido ele o enganado em todo este caso. Versão, aliás, já desmentida por quem assistiu de perto ao descalabro: José Maria Ricciardi, Pedro Queirós Pereira e o próprio Governador do Banco de Portugal.
Mas acredita-se sem esforço que Ricardo Salgado apostasse o que tinha e o que não tinha em como o grupo e o banco seriam salvos com financiamentos do Estado, diretos ou indiretos. Podia ser a linha da troika, um financiamento da Caixa Geral de Depósitos, um crédito especial criado pelo Tesouro, uma entrada no capital com dinheiros públicos… alguma coisa se haveria de arranjar. No limite, os amigos da PT dariam mais uma ajuda e, com sorte, podia escapar por entre os pingos da chuva. Assim o Governo apoiasse, as autoridades não incomodassem, a conjuntura ajudasse e o alinhamento de todos os astros desse o seu inestimável contributo.
Afinal ele era Ricardo Salgado e sempre tinha contado com magníficas conjugações de interesses, de empresas amigas a governantes, de empresários abastados a investidores pouco atentos que se tinham habituado a confiar na marca Espírito Santo. Cá ou lá fora.
Afinal ela era o único dos principais banqueiros que tinha ousado recusar o dinheiro que a troika destinou à banca e conseguiu fazer um aumento de capital já com o rabo escondido e o gato de fora.
Afinal ele tinha reconstruído um grupo que, pensava, era demasiado grande para falir. A queda do BES era inimaginável pelo seu impacto no sistema financeiro e em toda a economia. Estavam em causa milhares de milhões de depósitos e de créditos, milhões de clientes, milhares de empregos. O BES confundia-se com o país e o país confundia-se com o BES. O que era bom para o BES era bom para Portugal. A queda do BES, se fosse permitida sem rede ou intervenção, podia representar o regresso do país à fase da desconfiança pré-troika. Como seria vista de fora? Afinal, o que é que se passa de novo em Portugal? Bancos a falir? O BES? Vamos fechar de novo a torneira.
Contava certamente com esta análise de impactos quando foi fazer os pedidos de ajuda ao primeiro-ministro e sugeriu um financiamento da Caixa.
Ricardo Salgado leu mal a mudança de poderes que entretanto tinha ocorrido no país. Ele, que os conheceu bem em todos os regimes, acreditou que os governos são mais iguais do que podem parecer e que se uns se amedrontaram com o impacto sistémico do BPN e correram a nacionalizá-lo os outros não iam pensar duas vezes quando o BES lhes caísse no colo.
E não quis acreditar que o mecanismo de resolução pudesse ser acionado e, com ele, a expropriação da parte boa do banco.
Ricardo Salgado acaba isolado. Desmentido pela família, por antigos parceiros de negócios, pelo regulador. Provavelmente pelo contabilista, quando chegar a vez deste falar.
Em defesa da sua idoneidade, apresentou em tempo ao Banco de Portugal três pareceres jurídicos feitos por três professores de Direito de Coimbra. Eram tão mais fáceis os tempos em que a prova de idoneidade podia ser paga a preço de parecer…

Paulo Ferreira
Jornalista

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