O otimismo na ponta da agulha

Não nos iludamos: vai continuar a ser necessária muita energia para vermos o lado positivo dos acontecimentos, mas temos de a gerar.

“Sou um otimista – não parece ser muito útil ser outra coisa”. O racional de Sir Winston Churchill é difícil de contrariar. O pessimismo é uma profecia auto-realizável, o suposto realismo apenas uma versão arrogante do pessimismo. O otimismo pode certamente levar à desilusão, mas é a única perspectiva que nos permite acreditar que o melhor resultado é possível e que forma a base psicológica para agirmos de modo a atingi-lo.

O ano que termina agora demonstrou que não é fácil ser otimista. No meio de uma repentina pandemia global foi durante muito tempo difícil ver a luz ao fundo do túnel. Mas essa luz acabou por chegar, na forma de vacinas criadas com colaboração, engenho e otimismo. Quando a 8 de dezembro a britânica Margaret Keenan se tornou na primeira pessoa a receber a vacina, essa foi uma injeção de otimismo que vamos transportar para 2021.

Não nos iludamos: vai continuar a ser necessária muita energia para vermos o lado positivo dos acontecimentos, mas temos de a gerar. A eficácia da vacina não está garantida, dada a rapidez com que foi desenvolvida e a escala global da distribuição. Temos, no entanto, de acreditar na ciência, e na capacidade de ultrapassar qualquer problema. As novas variantes do vírus já chegaram para nos assustar, mas já aprendemos que a forma de reagir é ter mais cuidado e monitorização.

Na economia, a vacina traz uma dose de confiança sobre a recuperação, que mesmo sendo apenas parcial, representará um passo na direção certa. Não há forma de evitar milhões de falências e perdas de empregos, mas não podemos esquecer que as autoridades foram rápidas a lançar apoios e prometem lançar mais se forem necessários. O trabalho de readaptar a economia a um novo paradigma, que mesmo com desconfinamento irá sofrer alterações estruturais, vai ser crucial.

No caso de Portugal, temos de ser positivos nos esforços de digitalização, de sustentabilidade e na criação de crescimento em sectores que não dependem do turismo. Vários dossiês ‘quentes’ transitam para 2021 e nesses sim, admito, tem de se fazer um esforço adicional para ver o lado positivo. Desfazer o nó de litigância no 5G, reestruturar a TAP com o mínimo dano possível, adaptar os CTT à realidade moderna, orientar a banca para a rentabilidade, avançar com os grandes casos de Justiça de forma clara, todos estes são desafios exigentes, mas possíveis de superar.

Na política é sempre difícil ser otimista, mas não impossível . A nível global, a chegada de Joe Biden à Casa Branca poderá trazer alguma calma à arena depois do rancor e da gritaria que marcou o mandato de Donald Trump.

No plano nacional, 2021 vai começar com eleições presidenciais cujo vencedor está definido à partida e nas quais o barulho dos debates vai ser só isso: ruído. Mais significativas serão as autárquicas, pois além de implicarem prováveis alterações em municípios relevantes poderão representar um teste ao Governo.

Quer esteja o Executivo desgastado com a gestão da crise ou a beneficiar da recuperação, estou otimista que os eleitores conseguirão dar uma nota clara sobre o desempenho e, embora um pouco menos, que as forças políticas vão conseguir expressar os seus pontos de vista de forma construtiva.

A pandemia de Covid-19 trouxe o primeiro conflito verdadeiramente global desde a Segunda Guerra Mundial, envolvendo todos os países, desta vez não uns contra os outros, mas contra um inimigo rápido e invisível. Temos de pensar como o homem que liderou essa crucial vitória no século XX. Think positive.

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