O outro lado da história

A votação na Assembleia Geral da ONU relativamente à condenação da Federação Russa pela guerra na Ucrânia leva-nos a crer que reflete a vontade de [ alguns países] desalinharem pela neutralidade, receando o regresso da bipolaridade na Ordem Internacional.

É comum dizer-se que a história pertence aos vencedores. No domínio das ciências sociais, introduziram-se as noções de domínio do discurso pelo poder e da construção de narrativas que refletem esse mesmo exercício de poder. E de facto e em geral, a história é consagrada através da sobreposição de umas narrativas sobre as outras, de uns discursos que são aclamados, enquanto outros são silenciados, portanto, é geralmente obra de quem vence.

Contudo, a história pode ser construída e vista de diversas perspetivas, recorrendo a fontes diversificadas e a dinâmicas de contextualização que permitem ter uma análise mais profunda e rica que simplesmente uma data e um evento. E esse tem sido o papel de muitos cientistas sociais, mas não só, que percorrem o tempo histórico com as suas ferramentas de análise.

Deste modo, o estudo de boa parte dos eventos que acontecem na nossa vida individual ou coletiva, são mais complexos do que parecem na realidade. As análises a preto e branco não esclarecem e, mais que isso, perigam o entendimento de um acontecimento no seu todo. Por isso, a história ou as histórias têm sempre um lado menos visível que muitas vezes explica as relações causais que dificilmente se apreendem nos formatos maniqueístas.

Foi essa procura pelo esclarecimento da verdade, feita por um jornalista, mas seguindo um rigoroso método de recolha de fontes escritas e orais que me atraiu no livro “O Método Jacarta”, da autoria de Vincent Bevins, um jornalista norte-americano. Este livro, recentemente publicado pela Temas e Debates/Círculo de Leitores, ultrapassa a mera descrição dos factos, enquadra-os e tece em seu torno uma rede de contextos que demonstra como em geografias diferentes estavam a acontecer eventos políticos análogos. Esses acontecimentos viriam a condicionar o processo de criação de uma nova ordem internacional aquando do processo de descolonização e de emergência do Terceiro Mundo.

“O Método Jacarta” mereceu a atenção da crítica não só pela forma como está escrito e organizado, mas também pelos factos que trouxe à luz e que desafiam as ditas narrativas consagradas pelo mais forte em relação ao mais fraco. Pegando em documentos oficiais públicos e outros que foram tornados púbicos décadas mais tarde, em testemunhos orais e em biografias publicadas postumamente aos eventos, Bevins reconstrói os cenários em que solidificou uma longa ditadura na Indonésia que acabou por tocar Portugal. Contudo, o legado deste seu livro é a reabilitação dos silenciados da história e a procura do cruzamento destas histórias de vida com os documentos oficiais.

Entre a esperança trazida por Sukarno e a ascensão do cruel Suharto, escreve-se uma história em cujas entrelinhas se lê também a história do século XX e como os países descolonizados sucumbiram, ainda, à hegemonia das potências que construíram a ordem internacional à sua medida.

Entre desalinhados e realinhados

A narrativa, por onde Vincent Bevins nos leva, mostra como a formação do chamado Terceiro Mundo, com opção por um movimento dos Não Alinhados, acabou por ser uma expetativa gorada, dados os esforços da então União Soviética e dos Estados Unidos da América de cooptarem para o seu lado os países recém-independentes. Os Estados Unidos entram numa cruzada anticomunista e a União Soviética procura orientar os partidos comunistas existentes.

No caso da Indonésia, com o terceiro maior partido comunista do mundo, apenas ultrapassado pela República Popular da China e pela União Soviética, o caso torna-se paradigmático, pois o modelo como foram expurgadas todas as instituições de “carácter comunista” veio a repetir-se noutros cenários, também estes em aberta concorrência entre os dois blocos.

Nada mais irónico que o país onde se realizou a Conferência de Bandung e em que se proclamou como elemento diferenciador o “Terceiro Mundo”, não tendo o conceito o sentido pejorativo que veio a adquirir, acabasse por alinhar com um dos blocos que se digladiava por influência. A história é simples, o Presidente Sukarno, figura mítica da independência da Indonésia, contribuíra para as bases de um movimento que refletisse os interesses do Terceiro Mundo, recentemente independente. Um movimento que foi a base do Movimento dos Não Alinhados e que reclamou uma Nova Ordem Mundial Económica e uma Nova Ordem Mundial de Comunicação Internacional.

Por essa época, estes estados recém-independentes tinham percebido como era importante o direito ao discurso para a esfera internacional, pois só assim poderiam defender as suas narrativas.

Voltemos à Indonésia. Este primeiro presidente procurara fazer governos de consenso, num país em que a influência dos partidos de esquerda, incluindo o Partido Comunista crescia por via eleitoral. Apostara, também, numa política internacional que não descartava nenhum dos grandes blocos da Ordem Internacional, negociando com os soviéticos e com os americanos. Todavia, esse jogo de equilíbrios é interrompido por um Golpe de Estado Militar, liderado por Suharto que se eternizou no poder.

É com o beneplácito internacional que Suharto ordena o apoio a invasão de Timor-Leste, aquando da saída dos portugueses, combinando a defesa do anticolonialismo com a luta contra o anticomunismo. A Indonésia tinha agora o seu papel na Guerra Fria e isso justificava contribuir para a expulsão da presença portuguesa, enquanto ocupava o território para combater um movimento comunista, a FRETILIN. O resto da história é conhecido em Portugal. Inaugura-se um longo período de ocupação violenta de Timor-Leste, em que durante muito tempo, apenas Portugal introduzia na esfera política internacional a questão.

Será preciso um jornalista presenciar um ataque feroz contra estudantes desarmados para o mundo acordar. Timor Leste não fora mais do que uma vítima desta confrontação de blocos que apenas se vê reconhecido quando um dos blocos desmorona. Comemorámos as duas décadas da restauração da independência de Timor-Leste e talvez este seja o momento para refletirmos sobre o seu significado num quadro maior, denominado Ordem Internacional.

Foi o fim da Guerra Fria e da confrontação de dois blocos que trouxe de novo a esperança aos países que agora se desprendiam dessa classificação que começara a ter um pendor negativo. Ao Terceiro Mundo seguiram-se outras expressões. Com a globalização surgem novos realinhamentos e também a integração cabal destes países nas cadeias de produção e de valor mundiais. Surgem os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e a assunção destes países como potências regionais, com as suas próprias esferas de influência, movendo-se em organizações internacionais mundiais, mas também naquelas que vão criando regionalmente.

A União Europeia foi talvez o caso mais paradigmático de transformação com o fim da cortina de ferro. Estendeu-se a Leste e procurou recentrar a sua política na relação com estes atores que agora despontavam noutros continentes.

Parecia haver agora espaço para todos, embora a liderança fosse da superpotência, reconhecida por todos, os Estados Unidos da América. O trabalho de influência regional dos atores que, entretanto, ganhavam protagonismo internacionalmente estava, contudo, ainda ligado a uma Ordem Internacional que surgira da confrontação de dois blocos.

A liderança dos Estados Unidos, embora incontestada, via surgir concorrência por parte das influências regionais das potências que agora ganhavam forma, destacando-se a China devido à capacidade de desenvolver para em breve competir diretamente, económica e tecnologicamente, com o líder mundial. É neste contexto que surge a guerra na Ucrânia e que vemos todos os discursos confluírem para Europa e Estados Unidos.

E do outro lado?

Este domínio da esfera da comunicação internacional dos discursos ocidentais, sem levantar o véu sobre como outras potências, se bem que regionais olham este conflito, leva a que em geral a opinião pública dos nossos países ignore quais as perceções e ansiedades que a guerra na Ucrânia levantou.

Recentemente, num seminário em que participei, os especialistas da América Latina temiam ter de escolher “um dos lados”, defendiam que a solução talvez fosse olhar para solidariedades de proximidade e abster-se de escolhas precipitadas, feitas no calor de uma guerra. É que esses lados outros, em África, na Ásia ou mesmo na América Latina, já viveram muitas guerras, algumas recentes, fosse para lutar por independências, contestar fronteiras, combater pela posse de recursos lícitos ou ilícitos ou rechaçar movimentos terroristas.

Muitos viveram na primeira pessoa a destruição e o aniquilamento ético adjacente a todas as guerras. Talvez por isso, esses outros lados tenham dificuldade em ver a guerra na Ucrânia somente pela lente ocidental e queiram ver pela sua própria lente.

Olhando para trás e vendo estas histórias outras, percebe-se que este mundo que emergiu de uma promessa de maior participação na Ordem Internacional ainda quer ser desalinhado ou criar os seus próprios alinhamentos. A votação na Assembleia Geral das Nações Unidas relativamente à condenação da Federação Russa pela guerra na Ucrânia leva-nos a crer que reflete essa vontade de desalinhar pela neutralidade, receando o regresso da bipolaridade na Ordem Internacional.

Como poderão reagir? Ainda não sabemos, mas muito está em jogo com esta guerra na Ucrânia que representa também as “dores” do surgimento ou preparação de uma nova ordem.

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