O Papa Francisco e o Islão

O Papa Francisco visitou a Turquia, país com expressiva maioria muçulmana (97% de fiéis). O reforço das relações ecuménicas tem sido uma das preocupações mais notórias deste papado. Alguns católicos poderão perguntar-se porque insiste o Papa neste diálogo e nestas visitas a países islâmicos. A resposta está no discurso que proferiu no Parlamento Europeu, defendendo […]

O Papa Francisco visitou a Turquia, país com expressiva maioria muçulmana (97% de fiéis). O reforço das relações ecuménicas tem sido uma das preocupações mais notórias deste papado. Alguns católicos poderão perguntar-se porque insiste o Papa neste diálogo e nestas visitas a países islâmicos. A resposta está no discurso que proferiu no Parlamento Europeu, defendendo uma cultura de paz e uma postura de diálogo e negociação permanente.

O Papa Francisco, para além de ser um humanista, é um homem de bom senso e sensibilidade rara na condução das relações externas do Vaticano. Para além de procurar situar o papel da Igreja Católica nos dias de hoje, procura de facto conduzir uma política de paz. Fá-lo evitando demonizar os extremistas, apesar de condenar os seus atos, e estabelecendo o diálogo com alguns parceiros descartados pelos próprios Estados envolvidos na luta internacional contra o terrorismo.

Ao visitar a Turquia, o Papa Francisco demonstra que não teme os extremistas que estão ali ao lado, na Síria, a vitimar diariamente populações civis. Mostra-se aberto ao diálogo, reconhece o valor da religião islâmica (daí as visitas oficiais aos locais de culto) e dá um novo ensejo à aproximação entre católicos e muçulmanos. Não é a primeira visita a um Estado islâmico e não será provavelmente a última, revelando que o Vaticano, através do ecumenismo pode ter um papel importante na diplomacia atual.

O Papa Francisco percebeu que, sem o envolvimento do Islão, os extremistas que se dizem islâmicos não poderão ser parados. Entendeu, também, que para diminuir o seu poder, é preciso que os poderes temporais e intemporais islâmicos condenem os ataques que são feitos indiscriminadamente a civis. Sabe que só assim o recrutamento de jovens poderá diminuir.

O grande contributo deste papado é que desenvolve uma política internacional de paz. E fá-lo porque identificou o cerne da questão. Enquanto as condenações aos extremistas que se escudam na religião islâmica foram feitas por não islâmicos (portanto, com carácter de alteridade/exterioridade) podem ser entendidas como imperialismo. No dia em que haja condenações provenientes do seio das sociedades islâmicas, estas serão entendidas como uma autoconsciência de um facto, ou seja, como o reconhecimento que aqueles grupos afinal causam mais danos ao Islão do que o engrandecem.

O Papa Francisco percebeu que a solução para os problemas internos de determinadas sociedades está no seu seio. A demonização do inimigo e a sua condenação em praça pública, feita por outros, não produzirá os efeitos esperados. Cada sociedade tem de se pensar a si de forma crítica. E só o poderá fazer no dia em que não se sinta ameaçada por juízos externos. Esse é o verdadeiro ecumenismo deste papado.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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