O pior Inverno da história?

No início de Setembro, Paolo Gentiloni, o Comissário Europeu para a Economia, confidenciava ao Der Spiegel que “o próximo Inverno pode ser um dos piores da história”. Referia-se à incerteza que paira sobre a economia e que faz antever que a União Europeia possa entrar em recessão em breve. Na mesma entrevista, Gentiloni é questionado […]

No início de Setembro, Paolo Gentiloni, o Comissário Europeu para a Economia, confidenciava ao Der Spiegel que “o próximo Inverno pode ser um dos piores da história”. Referia-se à incerteza que paira sobre a economia e que faz antever que a União Europeia possa entrar em recessão em breve. Na mesma entrevista, Gentiloni é questionado sobre as reformas das regras fiscais europeias que o FMI incitou a Europa a acelerar – instrumentos fiscais comuns para promover a estabilidade macroeconómica e associar o ritmo dos cortes da dívida pública ao risco individual do país. A determinada altura Gentiloni afirma “Precisamos de finanças sólidas na Europa, mas devemos ter o cuidado de evitar asfixiar o crescimento”, indicando assim que em sua opinião que poderá estar nas mãos da União Europeia decidir se este será o pior Inverno da história.

Os receios de Gentiloni quanto aos próximos meses não são infundados. Na última semana de Setembro, a OCDE divulgou previsões para o desempenho da economia mundial em 2022 e em 2023. Paying the price of war foi a designação escolhida pela OCDE para o seu Economic Outlook onde prevê que a taxa de crescimento mundial desacelere de 3% em 2022 para 2,2% em 2023 e que a Alemanha apresente mesmo um crescimento negativo de -0,7% em 2023.

Entretanto, o Banco Mundial publicou as suas previsões económicas de Outubro para a Ásia Oriental e Pacífico referindo que o gigante China perdeu dinamismo, mas antevendo o acelerar do crescimento na Ásia Oriental e Pacífico para 5,3% em 2023. E as flutuações cambiais são o novo ingrediente desta história – o yuan chinês atingiu uma cotação mínima em 14 anos em resultado da subida das taxas de juro pela Reserva Federal americana, enquanto a depreciação da libra esterlina levou o Banco de Inglaterra a intervir no mercado para segurar esta moeda.

E a propósito de políticas convém refletir sobre o caso britânico, onde Liz Truss, a nova primeira-ministra, parece apostada num Inverno escuro e frio – o anúncio de um corte nos impostos sobre os mais ricos para estimular a economia terá provocado o descalabro da libra, levando o FMI, bancos centrais e outros analistas a avisar contra os riscos de aumentar a procura num cenário de inflação, mas também de agravar a desigualdade com estas medidas. Truss prometeu, ainda assim, “mão de ferro nas finanças nacionais” e a sua política desigual gerou protestos tão fortes que foi mesmo forçada a retirar a proposta.

Depois de anos de baixa inflação, baixas taxas de juro, fraco crescimento económico e obsessão com o controlo do défice e da dívida, os governos têm dificuldade em abandonar o paradigma dominante e desenhar medidas disruptivas para alterar o cenário macroeconómico. É mais fácil continuar a propor o aumento da taxa de juro do que defender medidas para controlar a inflação que ponham em causa os padrões instalados – por exemplo, introduzir impostos sobre lucros extraordinários. É mais fácil, como faz Liz Truss, culpar os impostos elevados pelo estrangulamento do crescimento, do que propor a intervenção do setor público, por exemplo, com investimento, para promovê-lo.

Os grandes desafios deste Inverno são a guerra na Ucrânia, mas também a guerra contra as ideias instaladas.

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