O poder de mudar

O medo é o maior aliado da passividade e do conformismo. É quando se supera o medo que se tem o poder de mudar

Em tempos difíceis, marcados pela crise, pela austeridade e pela instabilidade interna e externa gerada pelos ataques terroristas que vão manchando diversas latitudes e longitudes, aumenta o risco de conformismo ou desalento. Mas também são estas conjunturas que obrigam a maiores reflexões e à necessidade de mudança.

Em Portugal, vivemos momentos de mudança, não só porque temos um novo elenco governativo, mas também porque vemos uma sociedade civil mais ativa. Destaco duas notícias que me agradaram particularmente: pela primeira vez, temos, no governo português, representada a diversidade que o país contém em si (apesar da notada ausência de mulheres em lugares cimeiros); a realização de uma conferência internacional e exposição sobre a obra de Paula Rego, nos próximos dias 3 e 4 de dezembro, na Universidade Nova de Lisboa e na Fundação D. Luís.

A representação da diversidade é um dos passos mais importantes para a mudança, não só pelo significado simbólico, demonstrando que todos temos um papel importante a desenrolar na construção do bem comum, como pelo poder real de rejeitar a passividade face às situações vividas. Ter um primeiro-ministro e uma ministra que representam os encontros culturais de que Portugal usufruiu só pode ser um bom indicador. Ter uma Secretária de Estado que, sendo cega, é escolhida para estar no governo significa esperança para uma maior integração das pessoas com deficiência. Neste momento, a mensagem simbólica é que existe o poder de mudar. E essa será a expectativa da maioria da população.

O reconhecimento cultural de uma figura como Paula Rego, reunindo em seu torno artistas e estudiosos, representa também a mudança na adversidade. Apesar de o universo da artista estar povoado de fantasmas e medos, testemunha também a força da superação desses mesmos elementos negativos. A artista representa, no fundo, o romper com a escuridão de um país silenciado e a capacidade de projetar-se para além da obscuridade. O facto de mulheres e homens reinterpretarem a sua obra significa que esta constituiu o irromper de algo novo que ainda agora se revela. Como se o seu poder de mudar se mantivesse aceso.

Assim, mesmo em tempos difíceis, por vezes, entreabrem-se portas de esperança que podem ser escancaradas, desde que haja vontade. Com pensamento crítico, persistência e pequenas alterações diárias poder-se-á construir alguma alternativa às crises e ameaças terroristas, pois uma sociedade coesa é muito mais resistente que uma sociedade enredada no seu próprio medo. A história tem ensinado algo a Portugal. É quando os portugueses superam os medos e se tornam maiores que o próprio receio que os maiores sucessos chegam. Paula Rego é um testemunho disso. Ela e outros intelectuais portugueses.

É bem certo que Portugal e a Europa, perante os desafios do presente, precisarão de construir a coesão necessária para resistir aos abalos humanos, sociais, económicos e financeiros que as várias crises e ameaças vão deixando ficar. Isso só será possível enfrentando o medo e mudando aquilo que já não corresponde aos anseios comuns.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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