O potencial de negócios da língua portuguesa

Escrevi esta coluna a caminho do Brasil, por coincidência, a bordo do avião da TAP, D. João II “o Príncipe Perfeito”, para participar no Fórum empresarial Investe Nordeste, onde irei proferir uma palestra subordinada ao tema “O potencial de negócios da língua portuguesa”. Há muitos anos que este tema me interessa e as duas questões […]

Escrevi esta coluna a caminho do Brasil, por coincidência, a bordo do avião da TAP, D. João II “o Príncipe Perfeito”, para participar no Fórum empresarial Investe Nordeste, onde irei proferir uma palestra subordinada ao tema “O potencial de negócios da língua portuguesa”.
Há muitos anos que este tema me interessa e as duas questões fundamentais que continuo a colocar não são se a língua portuguesa tem valor e se constitui em si mesma uma vantagem estratégica, mas é quem é que mais lucra com o mercado da língua portuguesa e se essa vantagem estratégica é decisiva. É que não é claro que seja Portugal, nem sequer os restantes países lusófonos, quem mais beneficie com esse mercado e a vantagem estratégica pode, em muitos aspetos, funcionar como um obstáculo.
Há, pelo menos, cerca de 15 anos, que se fala no potencial de negócios da língua portuguesa. Muitos davam o salto lógico e referindo que a relação privilegiada com os países da CPLP, com as regiões de Macau e Goa e até com os países com comunidades lusófonas relevantes, constituía um desígnio estratégico e uma oportunidade para o sucesso. Recordo-me, a título de exemplo, de que, para alguns, Macau seria um “porta-aviões”, a porta de entrada portuguesa, na relação com a China. Mas o que sucedeu foi o contrário. O primeiro país a aproveitar em força o mercado da língua portuguesa, utilizando precisamente Macau, foi a China. Preparou-se em tempo para isso – nomeadamente com milhares estudantes de língua portuguesa – claro que com alguns portugueses de permeio a beneficiar, e usaram, eles sim, Macau como o tal “porta-aviões”.
Outras potências, da França aos EUA, do Reino Unido à Espanha já desenvolvem uma fortíssima atividade comercial no espaço lusófono, tendo a vantagem, que se manifesta de várias formas, de não serem a ex-potência colonial.
No entanto, a língua portuguesa é, à partida, um ativo intangível significativo para todos os países de expressão portuguesa, tendo em conta que existem mais de 250 milhões de falantes da língua portuguesa, que representam 3,8% da população mundial e cerca de 4% da riqueza total do mundo.
Mas para que todo o seu potencial de negócio se concretize há, efetivamente, muito por fazer, em matéria económica, diretamente a nível dos mercados, em matéria financeira, e também ao nível da circulação dos fatores de produção.
Todos os países da lusofonia têm naturalmente diferentes regras, diferentes modos de funcionamento, e encontram-se em momentos diferentes da sua evolução como sociedades.
Para compensar essas limitações, é preciso é haver capacidade de trabalhar em conjunto e nem sempre os nossos governos têm sido capazes de perceber isso.
Para este aprofundamento da integração económica contribui decisivamente, para além da vontade política, a atividade empresarial, sendo necessário, para o aumento dos fluxos de investimentos e trocas comerciais, um conhecimento aprofundado dos mercados lusófonos.
O desígnio de expansão para novos mercados, mesmo para aqueles onde existe a aparente facilidade de uma língua comum, pode ser fatídico para as empresas que não se preparem devidamente e que não estejam cientes dos constrangimentos regulatórios, das práticas de concorrência, do ambiente social, cultural, político e securitário, para além do ambiente micro e macroeconómico do espaço para onde se pretendem expandir.
É este trabalho prévio, assente em práticas de segurança empresarial e de inteligência competitiva – que são as áreas de especialidade de dois projetos empresariais em que participo, e que representarei no Fórum Investe Nordeste, a XKI Security Management Consulting e da SC&A Strategic Management Consulting –, que é imprescindível para qualquer iniciativa de internacionalização, na medida em que permite uma correta análise do risco não financeiro dos investimentos, a deteção de ameaças competitivas, a caraterização das vulnerabilidades dos projetos, a implementação precoce ou preventiva de políticas de segurança para proteger o capital das empresas (humano, material ou intelectual), o mapeamento informacional e a análise dos ‘stakeholders’, dos negócios e dos mercados.
O sucesso dos negócios em língua portuguesa poderá passar pela correta preparação, conhecimento mútuo e pelo incentivo à criação de parcerias entre as empresas dos diferentes países, aproveitando as sinergias que advêm do conhecimento de cada um dos mercados.

Jorge Silva Carvalho
Consultor especialista em inteligência competitiva e estratégia

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