O preço de coabitar com Marcelo Rebelo de Sousa

Com este discurso, Marcelo Rebelo de Sousa, criador de factos políticos, avisou que terá, sempre, uma palavra a dizer, e exercerá o seu magistério de influência.

O dia da posse do XXIII Governo constitucional teve como facto mais relevante o discurso do Presidente da República, que condicionou António Costa e toda a legislatura, com dois avisos muito diretos.

Primeiro, tendo conquistado uma maioria absoluta, o primeiro-ministro não terá “desculpas ou álibis” para fazer “o que tem de ser feito”, sabendo-se que Marcelo Rebelo de Sousa pediu reformas estruturais, antes das eleições legislativas, e que avisou que recuperar a economia sem mudanças de fundo “corre o risco de ser encharcar com milhões as areias de um deserto”.

Depois, deixou claro que a vitória “grande” de Costa tem de ser para a legislatura e não para um meio mandato; que Costa não seja Durão Barroso, porque Marcelo deixou claro que não será Jorge Sampaio. “Agora que ganhou, e ganhou por quatro anos e meio, tenho a certeza de que vossa excelência sabe que não será politicamente fácil que esse rosto, essa cara que venceu de forma incontestável e notável as eleições, possa ser substituída por outra a meio do caminho”, avisou.

António Costa respondeu ao primeiro repto, reconhecendo que não haverá desculpas ou álibis, mas sim uma “responsabilidade absoluta”, mas deixou sem resposta a possibilidade de rumar a Bruxelas em 2024, quando será escolhida a nova presidência da Comissão Europeia.
Com este discurso, Marcelo Rebelo de Sousa, criador de factos políticos, avisou que terá, sempre, uma palavra a dizer, e exercerá o seu magistério de influência quando considerar que não está a ser concretizado “o que tem de ser feito”.

Está no seu segundo mandato e não tem já de enquadrar um Governo minoritário, alicerçado à esquerda, mas sim uma maioria absoluta, o que lhe dá uma capacidade de atuação – e de exigência – completamente diferente. Condiciona, assim, toda a legislatura, pela interpretação que fará do que for executado.

Depois, ao avisar sobre as consequências de uma eventual tentação de António Costa avançar para um cargo internacional, torna real uma ideia que não passava de especulação, ainda que suportada por indícios como a passagem da Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus para a tutela direta do primeiro-ministro; volta a condicionar o Governo, porque tudo o que acontecer, especialmente na gestão dos putativos sucessores do líder socialista, será lido à luz dessa possibilidade de mudança, ainda que Costa venha a negá-la, porque a questão não se coloca.

No dia em que entra em funções, mesmo com a promessa de aprovar já o programa de governo e de acelerar a apresentação de um Orçamento do Estado que se diz já pronto, António Costa parte para a corrida já em perda, a ter de recuperar, porque a dinâmica de uma nova equipa e o quadro da maioria absoluta esbarram nos avisos do Presidente. “É o preço das grandes vitórias, inevitavelmente pessoais e intencionalmente personalizadas” e de coabitar com Marcelo Rebelo de Sousa.

Recomendadas

BRICS, grandes economias emergentes

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento, ou Banco dos BRICS, como é conhecido, foi a decisão de maior confronto com os interesses das economias desenvolvidas. Uma resposta à leitura que fazem do sistema financeiro dominante, que só serve e protege os interesses dos países desenvolvidos.

Dois aeroportos a sul do Tejo, mas zero mobilidade

Teremos dois aeroportos, mas continuaremos a ter “becos” de mobilidade entre municípios vizinhos, como é o caso do Barreiro e do Seixal, que distam em linha reta menos de 5 km, mas onde não existe qualquer solução de mobilidade pública credível que leve menos de 30 minutos de viagem?

Tendências e desafios na indústria têxtil: breves anotações

Apesar do crescimento, a indústria mundial continua com problemas na criação de valor económico, com o montante total das perdas de 80% das empresas a superar os ganhos das 20% mais rentáveis.
Comentários