O preço de nascer mulher

A “taxa rosa” não existe formalmente enquanto conceito económico, mas são vários os estudos internacionais que atestam a sua existência e o impacto que a mesma tem sobre o género feminino.

Somos mais de 5,4 milhões só em Portugal, num mundo em que metade da população mundial é constituída por mulheres. Podemos estudar, trabalhar, votar, exercer cargos públicos e políticos no nosso país, quando em muitos países este tipo de direitos ainda se encontra vedado a milhões de mulheres. Somos iguais perante a lei. Ou assim é suposto, pois, na prática, a igualdade de género ainda é uma miragem em diversas áreas da nossa sociedade, incluindo a portuguesa.

E quando falamos em desigualdade habitualmente as situações mais desfavoráveis recaem sobre as mulheres, sob múltiplas dimensões, como a desigualdade salarial ou de direitos essenciais como o acesso a produtos de higiene menstrual, levando a que 2 em cada 10 mulheres vivam em situação de pobreza menstrual.

Vivemos em média mais anos do que os homens, mas menos anos de vida saudável. Estamos mais representadas ao nível da participação e permanência no sistema de ensino, mas ganhamos em média quase menos 220 euros do que os homens. E apesar de a Constituição da República Portuguesa fixar expressamente que ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão do respetivo sexo, a verdade é que mesmo ao nível do funcionamento do mercado as mulheres tendem a ser penalizadas. Como? Em resultado do efeito da chamada taxa rosa.

Não existe formalmente enquanto conceito económico, mas o que é certo é que vários são já os estudos internacionais que atestam a sua existência e o impacto que a mesma tem sobre o género feminino. Como resultado de estratégias de marketing e de publicidade, o que é certo é que ao longo da vida, as mulheres acabam por gastar milhares de euros na compra de produtos que em tudo se assemelham aos dos homens, tudo porque, tomando por base estudos de mercado que apontam para uma maior predisposição de compra por parte das mulheres e para pagar mais por um produto, se procura desta forma obter mais lucro, cavando o fosso da desigualdade.

O impacto financeiro nas mulheres – e no agravamento do fosso da desigualdade – é de tal ordem que em países como os Estados Unidos houve já quem procurasse legislar sobre o tema.

Em Portugal, à semelhança do que sucede noutros países, não é reconhecida oficialmente a existência da dita taxa rosa. Contudo, sem que precisemos de fazer uma pesquisa muito exaustiva, podemos encontrar nos sites de venda online diferentes preços para champôs, desodorizantes, perfumes, cremes e outros artigos de beleza e higiene mais caros para as mulheres do que para os homens, só porque sim. Mas a “taxa rosa” também é aplicada noutros tipos de produtos como roupa, artigos de papelaria ou até brinquedos.

Precisamente para que possamos perceber as dimensões e nível de impacto da taxa rosa, conseguimos inscrever no Orçamento de Estado para 2023 uma proposta nesse sentido, na expectativa de que este possa ser um primeiro passo para eliminar esta prática profundamente discriminatória, tal como a própria ONU vem apelando.

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