O presente, o futuro e as incertezas africanas

O futuro em África deixará de soar incerto quando o sujeito africano passar a ser mais relevante nas apreciações do potencial africano, por oposição aos recursos naturais ou riquezas.

As análises acerca da realidade presente dos países africanos acabam por anular, por diversas vezes, uma perspectiva de futuro, revelando, sim, uma realidade marcada pela incerteza titânica. Estas análises comportam em si duas dimensões sobre as realidades africanas que estabelecem, desde logo, uma relação dialéctica complexa e contraditória em si.

A primeira dimensão identifica uma África rica, que possui inúmeras riquezas naturais e uma população jovem que constitui uma força de produção futura. Estes dois aspectos representam importantes factores para a projecção de uma perspectiva esperançosa quanto ao futuro de África.

Por sua vez, a segunda dimensão apresenta os países africanos como realidades sociopolíticas marcadas por bastante turbulência e conflitualidade política e social, muitas vezes, resvalando para conflitos armados. À luz desta segunda dimensão torna-se muito difícil antever um futuro para África. Inserindo-se numa típica representação de África como uma realidade marcada por uma guerra étnica e fratricida.

Assim, a primeira dimensão valoriza os recursos naturais e outras riquezas africanas per se, não colocando em cima da mesa uma reflexão económico-filosófica, política e mesmo moral sobre as possibilidades de exploração destas riquezas. Estes recursos naturais nunca foram explorados pelos próprios africanos e raramente serviram os habitantes das regiões exploradas. Por isso, quem hoje associa o futuro de África aos seus recursos naturais está apenas a ajuizar um futuro marcado pela incerteza para os próprios africanos.

Por seu turno, a segunda dimensão apresenta uma África condenada ao caos político e militar, onde os próprios africanos são incapazes de resolver os seus assuntos, vendo-se forçados a solicitar constantemente ajuda de terceiros para solucionar os seus problemas. De acordo com esta dimensão, o futuro do continente está fortemente condicionado pelos auxílios de terceiros.

Entendemos que a primeira tarefa associada a uma análise sobre o presente de África passa, necessariamente, por numa inversão de perspectiva político-filosófica e económico-filosófica, de forma a suscitar um processo de estruturação política promovido pelos decisores africanos. Ou seja, colocar os africanos no topo da escala de actuação política, presente e não futura, porque compreendemos que o futuro é consequência das acções do presente e não uma obra divina ou do acaso.

Reafirmamos, assim, que a prioridade deve estar na satisfação das necessidades essenciais dos africanos e no investimento na juventude através da formação académica, tornando-a mais consciente politicamente, crítica e dotada de um potencial transformador. A juventude esclarecida e consciente tem de deixar de ser identificada como um factor de instabilidade político-militar, como é possível observar na literatura especializada em conflitos armados em África.

Porque o presente de hoje em África deve rimar com a realização concreta dos africanos, daí que o discurso retórico que faz um apelo à calma e à compreensão quanto às dificuldades do presente acabe por ter um impacto redutor junto dessa população jovem.

Em suma, o futuro em África deixará de soar incerto quando existir uma inversão de valores, quando o sujeito africano passar a ser mais relevante nas apreciações do potencial africano, por oposição aos recursos naturais ou riquezas. De acordo com este novo paradigma, as diferenças humanas devem ser valorizadas e encaradas como uma mais-valia e não instrumentalizadas pelos agentes políticos que desejam somente dispor das riquezas e não pensar nas condições de vida dos africanos.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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