O projeto hegemónico polaco

A Polónia está num processo de reavaliação das suas opções geoestratégicas. NATO e UE são e continuarão a ser a sua primeira opção estratégica. Contudo, são visíveis esforços para assumir a liderança no espaço da Europa Central em várias questões.

O atual pensamento geoestratégico polaco é fortemente influenciado pelas ideias do general Jozef Pilsudski, elaboradas a seguir à Grande Guerra. Defendia este uma aliança de estados desde o Mar Báltico ao Mar Negro (Finlândia, estados Bálticos, Checoslováquia, Hungria e Roménia) liderada pela Polónia, aquilo que ficou conhecido como Intermarium. Visava este projeto contrabalançar o poder da União Soviética e da Alemanha. No período entre guerras foram feitas várias tentativas para implementar o Intermarium, mas nenhuma vingou.

Pilsudski tentava de certa forma replicar a união polaca-lituana do século XVI, que englobava a Polónia, a Lituânia, aquilo que é hoje a Bielorrússia e a Ucrânia, no seu tempo uma das entidades políticas mais importantes no espaço europeu. O garante da liberdade da Polónia era assegurado pelo controlo da Ucrânia. Esta visão foi reformulada no final dos anos 1950 por dois polacos – Juliusz Mieroszewski e Jerzy Giedroyc – que argumentavam ser impossível existir uma Polónia independente sem a Lituânia, a Bielorrússia e a Ucrânia igualmente independentes. A perenidade daquele argumento justifica a presente atenção da Polónia à emancipação política da Lituânia, Bielorrússia e Ucrânia.

Procurar que esses países não voltem à órbita da Rússia tornou-se um dos principais objetivos da atual política externa da Polónia. É nesta lógica que devemos enquadrar muitas das iniciativas polacas em matéria de política externa no pós Guerra Fria.

Assistimos desde os anos 90 do século passado ao retomar desse projeto geoestratégico pelos dirigentes polacos, tanto no quadro bilateral como multilateral, apoiando-se agora no Ocidente para o concretizar, isto é, na NATO e na União Europeia. Foram várias as iniciativas promovidas pela Polónia para lhe dar corpo. Para além de utilizar a NATO e a UE para atingir os seus objetivos de política externa, a Polónia efetuou importantes diligências fora do quadro destas organizações.

Logo em 1991, com a Checoslováquia (mais tarde República Checa e Eslováquia) e a Hungria, a Polónia criou o Grupo de Visegrado (V4), a iniciativa de impacto regional mais importante, que funciona como um bloco nos vários fóruns políticos e militares em que aqueles países participam, concertando decisões antecipadamente, e que inclui também uma vertente de cooperação de defesa.

Em 2003, a UE lançou a “Política Europeia de Vizinhança”, a qual inclui uma vertente para leste, de que a Polónia foi mentora. Embora não declarada, esta iniciativa visava subtrair da influência de Moscovo os países participantes.

Em 2015, o presidente romeno Klaus Iohannis e o seu colega polaco Andrzej Duda, durante a cimeira dos Estados da Europa Central e Oriental realizada em Bucareste, propuseram os Nove de Bucareste (B9), uma iniciativa de cooperação que envolve a maioria dos novos membros da NATO (Bulgária, República Checa, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia, Roménia e Eslováquia) com o objetivo de desenvolver um grupo especial de cooperação regional em apoio dos objetivos da NATO.

Em 2016, o presidente polaco Andrzej Duda promoveu a iniciativa de cooperação regional dos “Três Mares” (3SI), referente aos mares Adriático, Negro e Báltico, que para além dos países do B9, inclui a Áustria, Croácia e Eslovénia. Aí foi proposto a criação de um eixo norte-sul no seio da 3SI para fortalecer a cooperação económica da Europa Oriental e Central com a União Europeia (UE). Todas estas iniciativas foram apresentadas como tendo por objetivo reforçar a UE ou a NATO.

Ainda em linha com as premissas geopolíticas delineadas, os polacos estabeleceram relações especiais com a Lituânia e a Ucrânia, procurando arrastar esses estados para o Ocidente. Assim, a Polónia estabeleceu uma “parceria estratégica” com a Lituânia e contribuiu para a sedição que levou ao golpe de Estado na Ucrânia e derrube do Presidente Yanokovitch democraticamente eleito. Esta lógica estende-se ao campo desportivo. Em 2012, a Polónia promoveu conjuntamente com a Ucrânia a organização do campeonato europeu de futebol.

A Polónia encontra-se num processo de reavaliação das suas opções geoestratégicas. A NATO e a UE são e continuarão a ser a sua primeira opção estratégica. Contudo, são visíveis esforços para assumir a liderança no espaço da Europa Central em várias questões (economia, energia, infraestruturas, segurança e defesa, etc.). A ideia de se constituir líder regional é bem acolhida tanto pelas elites como pelo povo, e não resulta de uma ação do presente governo centrista.

Contudo, não se devem confundir desejos com realidades. A capacidade da Polónia para influenciar os seus vizinhos é ainda limitada e enfrenta muitas dificuldades. À semelhança de iniciativas anteriores, a probabilidade de a Polónia conseguir moldar a geopolítica da região aos seus desígnios é extremamente reduzida. De assinalar, que o projeto hegemónico polaco é apenas mais um caso de ambições geopolíticas centrífugas existentes no interior do projeto político comum europeu, que se pretende unificador, potenciadoras de choques e desentendimentos.

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