O que arde, cura

Parece que essa nova besta que é a inflação não é indomável, mas também ainda não está domada, e pode estar a amolecer-nos para nos apanhar melhor de surpresa.

Jeremy Powell está transformado no cavaleiro Jedi da política monetária. Depois da inflação nos EUA atingir 9,1% em junho, o pico deste ano, foi progressivamente caindo para 8,2% em setembro e 7,7% em outubro, a taxa mais baixa desde janeiro.

Começa a criar-se a ideia de que a inflação está batida, a ponto de se antecipar que os aumentos de 75 pontos base da taxa de juro diretora que a Reserva Federal norte-americana (Fed) vem fazendo acabaram (a fedwatch tool dá 70% de probabilidade a um aumento de 50 pontos base na reunião do Open Market Committee, que terá lugar daqui a quinze dias).

Agora será uma questão de (pouco) tempo até se regressar à estabilidade de preços, os míticos 2%. Mas pode ser cedo para cantar vitória.

Uma parte da história é certa. A criação de moeda abrandou fortemente nos EUA, depois de anos de Quantitative Easing, a resposta não convencional às sucessivas crises por que se passou, desde o episódio da Lehman Brothers até ao Covid. O M2 (a quantidade de moeda, incluindo notas e moedas, depósitos à ordem e a prazo) chegou a aumentar 26,9% em termos homólogos em fevereiro de 2021, para evitar o colapso com a economia em lockdown, para acabar o ano a crescer 12,5%.

Ora, no final de outubro passado estava-se em 1,3%, metade dos 2,6% de setembro e muito abaixo da média histórica de quase 7,5%, portanto com os travões às quatro rodas (o valor mais baixo desde 1960 é 0,2%, em março de 1993).

Os EUA estão em Quantitative Tightening, e menos criação de moeda é menos inflação. Mas se a Fed está a destruir base monetária – 1,32% num mês, 15,7% num ano; era menos de um milhão de milhões de dólares em 2010, chegou a perto de 6,5 milhões de milhões em 2021, é 5,3 milhões de milhões agora –, a concessão de crédito pelos bancos comerciais, outro fator de criação de moeda, está a acelerar e bem: a 12,5% de variação homóloga, voltámos a 2008.

E como se não bastasse, o mercado de trabalho nos EUA continua “apertado”, com a taxa de desemprego a níveis historicamente baixos, o que quer dizer que há ainda pressão para o aumento dos salários, logo dos preços. Acresce que o redesenho das cadeias de produção, por razões estratégicas – a redução da dependência, que as relações entre EUA e China, com Taiwan pelo meio, tem mostrado ser de extrema importância – cria espaço para aumentos dos custos, que não deixarão de se traduzir, eles também, em aumentos dos preços.

Mudar do just in time para o just in case tornou-se uma necessidade, um revisitar do equilíbrio clássico entre rentabilidade e risco.

Então, no tocante à política monetária, a questão agora é, como diria Lenine, que fazer? Bem, parece que essa nova besta que é a inflação não é indomável, mas também ainda não está domada, e pode estar a amolecer-nos para nos apanhar melhor de surpresa. Portanto, bem faz Powell em não levantar a guarda, mesmo que haja quem o peça. Mesmo que o peça desesperadamente. Teremos de viver com isso, e não é mau, há pior.

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