“O que está a acontecer na Ucrânia é um genocídio”, diz guarda-redes ucraniano refugiado em Portugal

Andriy Artym, refugiado ucraniano e jogador d’”Os Belenses”, deixou Lviv, a família e os amigos por causa do conflito armado. “Bem recebido” em Portugal, Artym admite não saber “o dia de amanhã” mas não tem margens para dúvidas: ” que está a acontecer na Ucrânia é um genocídio”.

Andriy Artym (segundo a contar da direita), foi a nova aquisição do clube “Os Belenenses”, a 7 de abril. O refugiado ucraniano, que abandonou o país por causa do conflito armado na Ucrânia, sentou-se à conversa com o Jornal Económico para falar sobre a história de vida, a situação no país e o futuro que espera encontrar em Portugal.

Conte-nos um pouco da sua história.

Nasci na Ucrânia. Vivia em Lviv e jogava no Ahrobiznes, na segunda liga ucraniana. Por causa do frio do inverno, tivemos que parar o campeonato, já que é impossível treinar em relvado. Então fomos para a Turquia, a 14 de fevereiro, durante um mês fazer um estágio de preparação para o campeonato. Treinamos duas vezes por dia, todos os dias. A guerra começou dia 24 de fevereiro.

No dia 28 de fevereiro saímos da Turquia e fomos para a Hungria, onde estivemos durante duas semanas. Depois disso fomos para a Polónia. A seguir fui ter com a minha mãe e irmão a Itália. Foi aí que a minha madrinha disse à minha mãe que nós podíamos vir para Portugal. Quando aqui chegamos, eu sabia que queria jogar em Portugal. Desde o início de abril que estou no Belenenses. Gosto muito de aqui estar. O treinador, o estádio, os meus colegas, gosto muito de tudo.

Planeia ficar a longo-prazo em Portugal?

Eu gosto de Portugal, mas não sei como é que vai ser o meu amanhã. Talvez a guerra acabe, ou aconteça qualquer outra coisa que possa mudar a minha vida. Não sei.

A equipa recebeu-o bem? E o país?

Sim. Tanto a equipa como o país tem-me recebido muito bem. Vivo com a minha madrinha numa pequena aldeia a 2,5 quilómetros do mar. É um país lindo com paisagens incríveis.

Se a guerra acabar, volta para a Ucrânia?

Não sei. Eu tenho uma família que tenho de sustentar, e para isso é preciso dinheiro. Acredito que o futebol na Ucrânia vá estar parado pelo menos mais um ano, por isso não sei como poderia ganhar dinheiro e sustentar a minha família.

Ainda espera jogar durante esta época?

Eu quero, mas não sei se as regras da FIFA vão autorizar que jogue. Ainda estamos a ver.

Falar sobre a situação na Ucrânia é algo difícil para si?

Não. Não é um tema difícil. Depois do que já passei, falar sobre isso não é difícil. Eu consigo falar sobre a guerra, mas não é muito bom.

E qual é a sua opinião quanto ao que está a acontecer no país?

Acho que é um genocídio. Pessoas que viveram toda a sua vida num país, estão agora a perder os maridos, as mães, a família, os amigos. E porquê? Porque um homem acha que pode ajudar duas cidades: Donetsk e Luhansk. Ele engana as pessoas ao dizer que lhes vai dar liberdade, com a quantidade de informações falsas que propagam partir da Rússia. Também há informações falsas do lado ucraniano, mas do lado russo, a vasta maioria das informações são falsas.

Além disso, Putin é apoiado pelo seu povo. Durante oito anos, desde a guerra de 2014, que os russos têm recebido informações falsas e agora estão programados para o apoiar.

Alguma vez pensou em ficar para lutar?

Quando eu penso na guerra, eu penso nos meus amigos que estão em Lviv. Penso em amigos meus que morreram na guerra, penso nos meus amigos que, ainda não tendo morrido, não têm qualquer experiência militar. Penso na minha família e em como os posso ajudar. Tenho família a proteger cidades, a participar na guerra. A minha família está em Lviv neste momento.

Se pudesse dizer alguma coisa ao Putin, o que seria?

Não tenho nada para lhe dizer.

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