O que o incidente na Polónia pode significar

Se dúvidas ainda existissem, o Ocidente mostrou que não está interessado num confronto direto e Putin estará agora ainda mais convencido de que o compromisso para com a Ucrânia poderá vacilar devido ao impacto crescente na economia e ao receio de uma guerra generalizada.

À hora a que escrevo estas linhas, ainda não existem certezas sobre a causa da explosão com um míssil numa pequena localidade polaca junto à fronteira com a Ucrânia. Porém, acaba por ser indiferente saber se o míssil que caiu na Polónia foi lançado pelos russos ou pelos ucranianos, pois o incidente acabou por se tornar um teste ao sangue-frio e à disposição dos países que integram a Aliança Atlântica. E a forma como os ocidentais reagiram não terá passado despercebida ao Kremlin.

Ao longo das últimas décadas, Vladimir Putin tem sucessivamente testado o Ocidente com situações em que vai empurrando os limites, embora sempre com o cuidado de evitar um confronto direto com a NATO. Foi assim nas invasões da Geórgia e da província ucraniana da Crimeia. Putin vai até onde o deixarem ir.

Não por acaso, vários analistas consideram plausível um cenário em que tropas russas – oficiais ou na forma de “homenzinhos verdes” – ocupem uma qualquer localidade fronteiriça da Letónia ou da Lituânia, apenas para testar a vontade da NATO. Nesse cenário, a Rússia provavelmente retirará se os EUA e os seus aliados estiverem de facto dispostos a partir para a guerra à menor provocação. Mas se, ao contrário do prometido, os ocidentais não se mostrarem dispostos a travar uma guerra nuclear para defender “cada centímetro” do território da NATO, a Rússia terá desferido um golpe fatal na credibilidade da Aliança sem entrar em confronto direto com esta.

Neste sentido, a queda do míssil na Polónia acaba por ser uma situação parecida e os vários intervenientes terão certamente compreendido o seu significado.

Os líderes ocidentais, com Joe Biden à cabeça, terão percebido que a situação está a ficar demasiado perigosa, que existe o risco real de um conflito nuclear e que é preciso evitar um cenário em que a NATO se veja entre a espada e a parede, isto é, no qual tenha de escolher entre travar um conflito devastador com a Rússia ou tornar-se irrelevante enquanto aliança. Assim, perante um incidente grave que poderia dar origem a uma escalada incontrolável, fizeram a única coisa que estava ao seu alcance, que era baixar a tensão. Apressaram-se a dizer que a Rússia está inocente ainda antes da conclusão do inquérito.

Por sua vez, independentemente da origem do incidente, a Rússia terá de certa forma saído a ganhar, ao contrário do que têm defendido os analistas que consideram que nada tinha a beneficiar com o lançamento de um míssil para território da NATO. Se dúvidas ainda existissem, o Ocidente mostrou que não está interessado num confronto direto e Putin estará agora ainda mais convencido de que o compromisso para com a Ucrânia poderá vacilar devido ao impacto crescente na economia e ao receio de uma guerra generalizada. Sabendo agora que muito dificilmente a NATO estará disposta a implementar uma zona de exclusão aérea nos céus da Ucrânia, sentir-se-á ainda mais tentado a continuar a destruir a economia daquele país com bombardeamentos indiscriminados. Poderá inclusive testar os limites da NATO com ações de guerra híbrida na Polónia ou nos países bálticos.

Estes últimos, que por razões compreensíveis têm sido os membros da NATO com os discursos mais inflamados contra a Rússia, estarão agora menos certos de que os aliados virão em sua defesa caso ocorra um incidente semelhante dentro das suas fronteiras.

Por fim, a Ucrânia, que continua a garantir que o míssil não era seu (“não tenho dúvidas”, diz Zelensky), terá compreendido que, mais tarde ou mais cedo, será obrigada pelos seus aliados a fazer algumas cedências num eventual acordo de paz com a Rússia. O que, não sendo a solução ideal, poderá revelar-se o melhor resultado para todas as partes, desde que não constitua um incentivo a Putin para voltar a invadir países vizinhos, numa espécie de Munique 2.0.

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