O regresso do ‘Macho Ibérico’

A lição que fica é a de que o inimigo não se tornou menos perigoso mas, apenas, mais subtil. O machismo ainda existe e, por via da regra, quando se manifesta está nos lugares mais cimeiros.

(Resisto à tentação de escrever sobre os incêndios, as consequências dos mesmos e o seu aproveitamento feito por alguns líderes que, em tempo, nada fizeram para que a situação mudasse. Resisto, entre outras razões, porque não crendo num deus a quem se possa rezar, como já nos foi sugerido, tenho memória para além da espuma dos dias. A demissão de Constança Urbano de Sousa é um acto inútil se não for acompanhada de medidas sérias que vão além da atribuição de tachos a amigos partidários, até porque, neste país, a história tende a repetir-se e, no que concerne a incêndios ou a cheias, sempre com a tragédia como pano de fundo.)

 

Pese embora me proclame uma não feminista, no âmbito da minha actividade de docente, recordo muitas vezes aos meus alunos que, nos finais da década de 80, um acórdão do nosso Supremo Tribunal de Justiça, sob a justificação de que a visada era estrangeira e provinda de uma cultura mais liberal, proclamou a existência de uma, cito, “coutada do macho ibérico”, rectângulo em que, consoante a roupa que envergassem as vítimas, a pena pelos crimes de violação e de sequestro poderia ser atenuada. Volvida a estupefacção inicial, muitos dos meus alunos argumentam que tal ocorreu já há quase vinte anos e que idêntica doutrina seria hoje impossível.

Ora bem, a notícia espalhou-se nas redes sociais, num momento inicial sob um manto de incredibilidade, atentas as aleivosias constantes na decisão judicial. No corrente ano, um Acórdão da Relação do Porto, invocando a Bíblia e ordenamentos jurídicos em que o adultério é punido com lapidação até à morte, arrasou uma cidadã deste país, desculpabilizando as agressões de que fora vítima com a conclusão de que “o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra do homem”. Lendo-o, somos reconduzidos à já referida “coutada do macho ibérico”, aquela mesmo em que os homens podem violar uma mulher, principalmente se estiver de calções, sendo que, por seu turno, a adúltera (e apenas a mulher, já que o homem se limita, tanto quanto se percebe o raciocínio, a exercer uma vocação) aparentemente deve agradecer a extrema benevolência de não ser lapidada.

Na verdade, tal como nos incêndios, a lição que fica é a de que o inimigo não se tornou menos perigoso mas, apenas, mais subtil. O machismo ainda existe e, por via da regra, quando se manifesta está nos lugares mais cimeiros.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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