O risco de acreditar na própria propaganda

Mesmo que haja um cessar-fogo, devemos estar preparados para anos de tensão e conflito, com inevitáveis consequências no plano económico

A guerra na Ucrânia continua sem sinais de fim à vista. A Ucrânia tem-se batido de forma extremamente corajosa contra os invasores, contrariando as previsões iniciais que apontavam para uma vitória fácil dos exércitos de Putin.

Como em todas as guerras da era moderna, também neste conflito a propaganda é fundamental para a vitória. A verdade costuma ser a primeira baixa de qualquer guerra e o mesmo acontecerá neste conflito. Os dois lados servem-se de propaganda e torna-se difícil saber o que realmente acontece no terreno, por entre o ‘nevoeiro da guerra’. Por muito corajosos que sejam os jornalistas que arriscam as próprias vidas para cobrir o conflito, é muito difícil ao cidadão comum obter um retrato completo da situação militar no terreno.

O que sabemos, como facto, é que a Rússia falhou no seu objetivo inicial de conquistar a Ucrânia em poucos dias. A coragem dos ucranianos, apoiada pelo armamento e pela tecnologia dos países da NATO, impediu que a Rússia apagasse o seu país do mapa.

No entanto, o Ocidente não pode cair no erro de acreditar na sua própria propaganda, sob pena de entregar o ouro ao bandido. Até porque pode dar-se o caso de Rússia ter a vantagem no longo prazo.

Por um lado, as sanções não estarão a surtir o efeito que se esperava inicialmente, embora seja difícil quantificar o seu impacto devido à pouca transparência dos dados económicos divulgados pelo governo de Moscovo. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia russa deverá cair 8,5% este ano, com a inflação a rondar os 20 por cento, de acordo com as últimas previsões. Em comparação, a Ucrânia deverá ver o seu PIB cair em 35%. Do Zimbabwe a Cuba, da Venezuela ao Irão, a história recente está repleta de exemplos de autocracias que conseguiram sobreviver apesar das sanções de que foram alvo por parte das potências ocidentais. Com a diferença que, neste caso, trata-se do maior país do mundo, que detém as maiores reservas de petróleo a nível global e incontáveis recursos naturais que pode utilizar como moeda de troca com a China e outros aliados, de modo a contornar as sanções ocidentais.

Por outro lado, ninguém sabe o que pensa a maioria dos russos a respeito desta guerra. O apoio popular será decisivo para manter o esforço de guerra e Putin, que tem uma gigantesca máquina de propaganda ao seu serviço, saberá disso.

Em terceiro lugar, a Rússia já demonstrou nesta guerra que permanece fiel às tradições de outros conflitos, nomeadamente a sua quase completa desconsideração pela vida humana, quer se trate dos civis ucranianos, quer dos seus próprios soldados, como poderão testemunhar os desgraçados que foram enviados para cavar trincheiras nos terrenos contaminados em volta do reator de Chernobyl. Essa desvalorização da vida humana torna a Rússia um adversário extremamente resiliente e perigoso, ao ponto de a eventual utilização de armas de destruição maciça por parte de Putin já não ser encarada pelos especialistas militares como uma mera hipótese teórica.

Nas próximas semanas saberemos se Putin se dará por satisfeito por ocupar o leste e sul da Ucrânia ou se vai manter a guerra indefinidamente ou até invadir a Moldávia. Porém, devemos estar preparados para anos de tensão e conflito, com as inevitáveis consequências económicas. Nada voltará a ser como antes.

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