O SNS não é de esquerda nem de direita

António Costa foi clarinho como a água: Marta Temido tem um orçamento anual equivalente ao da bazuca que o país vai agora receber da UE para se modernizar. E foi simples a mensagem: “resolva o problema senhora ministra!”

Nos hospitais da Guarda, Portalegre, Castelo Branco e Beja só existem médicos com mais de 55 anos; por causa do Covid, hospitais que cuidavam de doentes com diversas patologias que requeriam uma rotina de tratamento dedicaram-se quase exclusivamente a combater o vírus; um caso familiar, uma pessoa com Covid foi ao hospital de Vila Franca de Xira, entrou às 11h00 e saiu às 23h30 apenas para ser observado e fazer exames.

Sim, leram bem, mais de doze horas para algo simples; em Sesimbra, uma senhora com 89 anos, frágil e humilde precisava de internamento para ser devidamente observada, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) recusou por falta de capacidade e aconselharam via privada. Familiar informou-se das condições num hospital privado, pediram cinco mil euros para três dias de internamento; outra pessoa teve um acidente de automóvel, foi para o São Francisco Xavier e esteve cinco horas numa maca, num corredor, até ser vista por um médico.

Estes são vários exemplos, mas quem lê estas linhas terá com certeza muitos mais para dar. O Serviço Nacional de Saúde do qual sou defensor acérrimo está com inúmeras dificuldades e tem sido tratado com pensos rápidos e sem o conseguirem reabilitar estruturalmente. O SNS é essencial pelo equilíbrio que dá em termos de solidariedade social, porque há muitos milhares de portugueses que não teriam condições de ser tratados e acompanhados se não fosse esta obra criada por António Arnaut.

Só que não pode haver preconceitos ideológicos. O SNS não é de esquerda nem de direita, é de todos. Foi criado para todos e a todos deve chegar. Se funciona mal, são os portugueses que perdem e é a comunidade que fica desequilibrada. Os seus problemas não são de hoje, o SNS é um edifício de cimento com muitos fantasmas do passado e não basta despejar um camião de dinheiro para mitigar os seus percalços. O problema é de gestão como o reconhecem todos os que passaram pelo ministério bem como ex-ministros das Finanças.

Marta Temido era uma das ministras mais populares do Governo e agora caiu uns furos nesse “ranking”. Não era a melhor ministra do mundo, como quando com a sua simpatia ajudou um país a ultrapassar os dias mais duros do Covid, nem é a pior do mundo agora porque o SNS está engripado. Mas António Costa foi clarinho como a água: a ministra tem um orçamento anual equivalente ao da bazuca que Portugal vai agora receber da UE para se modernizar. E foi simples a mensagem: “resolva o problema senhora ministra!”. No Parlamento defendeu-a mas o texto e o subtexto não tem escapatória para Marta Temido.

Até porque António Costa melhor que ninguém sabe que uma maioria absoluta dá estabilidade e conforto político para a governação, mas a mesma traz um peso acrescido. O de não haver desculpas para as reformas que têm de ser feitas. A saúde é uma prioridade de todos, mas são diversos casos (alguns que derivam dos efeitos da guerra) que ameaçam a paz social e que podem levar a contestação às ruas. E a rua é sempre o maior adversário de uma maioria absoluta como o passado já nos ensinou.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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