O tempo dos Não Alinhados

O mundo mudou. Começou com Bandung, mas provavelmente ainda não acabou. A única questão é se conseguiremos mudar em conjunto e para o bem comum da humanidade.

Houve o tempo dos Não Alinhados. Eram aqueles que, não se reconhecendo da esfera de influência dos Estados Unidos da América ou da então União Soviética, escolhiam a opção de se desalinhar dos dois blocos.

O processo da sua criação não foi imediato e teve as suas vicissitudes, mas bebeu na Conferência de Bandung os seus princípios. Essa conferência realizada em 1955, na Indonésia, reuniu os estados recém-libertados do colonialismo e outros que, sem a presença de colonialismo formal, tinham tido nos seus territórios manifestações informais de domínio ocidental, como a China.

As bases de igualdade entre os estados e de não interferência nos assuntos internos são apenas alguns dos pilares deste movimento que perdeu a sua força com a Guerra Fria. Contudo, a herança de Bandung continua viva nos espíritos dos líderes do Sul Global, nomeadamente, no que respeita à sua participação nas organizações internacionais multilaterais e, por vezes, à falta de protagonismo nelas encontrado.

A República Popular da China que agora emerge como potência de ambições globais é uma das protagonistas de Bandung. O discurso do então primeiro-ministro chinês, Zhou Enlai, ombreia com os discursos de Nehru, em representação da Índia, e do anfitrião indonésio, Sukarno. Numa declaração conjunta, são enunciados princípios que hoje continuam a ser parte do discurso de política externa destes países. Une-os a necessidade de se posicionarem numa ordem internacional que os relegava para o plano da inexistência.

Sem nunca ter feito parte oficialmente do Movimento dos Não Alinhados, a República Popular da China participou como observador. Eram tempos em que esta China se afastava da União Soviética, criando um cisma no seio do meio comunista, em que não era reconhecida a nova orientação que reprovava as políticas de Estaline. Eram, também, os tempos em que a China mantinha um ideal de exportação da revolução através do apoio aos movimentos de libertação nacional.

O desalinho chinês

Assim, passaram os anos sessenta e setenta do século XX, entre alinhamento, contestação ao alinhamento e realinhamento. A luta pela atração dos Não Alinhados aos blocos predominantes manteve-se e Estados Unidos e União Soviética nunca deixaram de desempenhar essa função.

Por seu lado, a República Popular da China encetava um caminho que a traria para dentro dos mercados internacionais. O trabalho diplomático de aproximação entre China e Estados Unidos, urdido entre pessoas de confiança dos presidentes Mao e Jimmy Carter, levaram à criação de um Gabinete de Ligação, a visitas mútuas e ao estabelecimento de relações diplomáticas que conduziriam ao reconhecimento da República Popular da China como representante do país (em detrimento de Taiwan), nas Nações Unidas.

Este passo não só trouxe a China para dentro da Ordem Internacional e do mercado internacional, como aproximou a China dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. Após a aplicação de reformas que permitiam a abertura do mercado chinês a investidores externos, estavam dados os passos para a sua integração plena na esfera internacional.

Tornou-se aquilo que os investidores com regozijo definiam como “a fábrica do mundo” e a população dos países ocidentais considerava com desdém. Deste modo, a China parecia ser apenas fonte de mão de obra barata e de imitações sem fim.

Contudo, a China concretizava um papel essencial na globalização ao permitir a deslocação da produção para um local que traria mais lucros e libertaria do trabalho industrial pesado as populações de alguns países. Para outros países desenvolvidos ou em desenvolvimento tornou-se também num feroz competidor, por exemplo, como no caso português para as áreas têxteis ou do calçado.

Ninguém contava com o facto de a globalização trazer, quase paradoxalmente, a oportunidade que a China precisava para aproveitar as interdependências criadas pela sua participação neste mercado, agora global. As deslocalizações de capitais permitiam à China treinar cada vez mais os seus trabalhadores e deslocar jovens chineses para aprender no mundo ocidental. Aprendendo e trazendo práticas inovadoras para o seio das empresas a laborar na China, o próximo passo era subir na cadeia de valor.

Integrando-se paulatinamente na lógica do mercado global, a China logrou ser parte da Organização Mundial do Comércio em 2001. Mas não só. A China apostava, igualmente, na aliança entre ciência, tecnologia e inovação, aumentando os fundos aplicados a esta área e criando polos de desenvolvimento públicos e, em simultâneo, premiando as empresas chinesas que reforçassem os departamentos de investigação e desenvolvimento.

Fruto destas políticas, a China deslocou o seu estatuto de “fábrica do mundo” para produtor de bens e serviços baseados em tecnologia, exportando mesmo as suas produções de mão de obra intensiva para outros países.

Da China cooperante à China concorrente

A par do seu desenvolvimento económico e social, a China abandonou definitivamente o apoio a atividades subversivas, como tinha feito no período das lutas pelas independências dos países colonizados, substituindo-o por um reforço das relações económicas. Assim, a China desenvolve um processo de aproximação a África e, mais tarde, a outras partes do mundo como o Médio Oriente ou a América Latina.

Para reforçar esse projeto de alargamento das suas relações externas, funda fóruns de cooperação regionais que terão nas políticas domésticas de estímulo ao investimento externo chinês um relevante apoio. A China ocupou, progressivamente, os espaços de cooperação deixados em aberto por outros países que voltavam as suas atenções para outras partes do mundo ou que simplesmente diminuíam o seu interesse naquelas economias.

Reforçando as suas alianças externas e agregando ao crescimento económico o desenvolvimento, a China foi mudando a sua paisagem interna e as suas propostas externas, nomeadamente, através da proposta da Nova Rota da Seda. Este projeto internacional, baseado numa proposta de conectividade permanente, estaria assente num pressuposto de globalização.

Coordenando pontos de apoio, sobretudo logísticos, alternativos aos existentes, a China propôs conexões continentais e marítimas que reeditavam rotas antigas, já experimentadas e, posteriormente, abandonadas dada a deslocalização das esferas de poder. Esta China, apesar de ainda cooperar com o modelo económico saído de Bretton Woods e aprimorado com as teorias liberais e de globalização, dá um salto e sugere alternativas, integrativas, é certo, mas ainda assim desafiantes para a ordem estabelecida.

Permanecem os princípios propostos na longínqua Conferência de Bandung, numa procura incessante do equilíbrio tão sabiamente evocado pela filosofia de Confúcio. Entre a manutenção de uma área de influência regional e uma progressiva globalização, a China vai-se tornando concorrente deste mundo há décadas estabelecido. A China ainda coopera, mas tem ambições de desafiar a hegemonia científica e tecnológica dos países ocidentais. Por outro lado, as suas parcerias provocam a sensação de extensão de influência a partes do mundo até agora em disputa.

A China passa a ser referida como um concorrente pelos poderes bem estabelecidos na ordem internacional. O 20.º Congresso do Partido Comunista Chinês, realizado na semana passada, reconhece bem esta situação na forma como enuncia as suas políticas internas e externas.

A China pretende continuar a aprofundar e diversificar as suas relações externas com base na coexistência pacífica, sem abandonar os seus princípios fundamentais ideológicos, económicos e a política de “uma só China”, reconhecida em todos os tratados internacionais que assinou com os vários países e organizações internacionais, incluindo os Estados Unidos e as Nações Unidas.

Novos realinhamentos?

Na verdade, não foi só a China que mudou, apesar de ter feito um árduo caminho para se tornar a segunda economia do mundo. Outras potências regionais também cresceram não só em demografia, mas em capacitação de recursos humanos e integração no mercado global. Partilham com a China essa vontade de ter uma maior participação na ordem internacional. Às vezes, parecem reeditar-se os esforços de uma lógica de não alinhados, enquanto de outro lado se força essa lógica.

Vemos, com alguma surpresa, a China e a Índia a encontrarem mecanismos e pontos de convergência, apesar de concorrentes regionalmente. Percebemos que a questão ideológica está longe de ser um obstáculo para o entendimento entre países com histórias políticas tão diversas como a China, a Índia, a Indonésia ou a África do Sul. Ouvimos o presidente Bolsonaro do Brasil, insuspeito de qualquer simpatia por qualquer um destes países, afirmar em plena campanha eleitoral os princípios do pragmatismo.

Começamos a entrever que existe desconforto com um alinhamento claro entre os lados em conflito, seja no conflito militar na Ucrânia, seja quando os Estados Unidos e a União Europeia declaram a China como um poder concorrente e, pelo menos discursivamente, desalinhado com os seus modelos de desenvolvimento. Contudo, olhando para os números que representam a relação entre a China e estes países, estes não parecem ainda corresponder ao discurso político.

Expectantes esses países, desalinhados e realinhados, que outrora propuseram uma nova ordem económica, uma nova ordem para a comunicação internacional e que foram observadores comprometidos destes movimentos, querem também ser parte das instituições multilaterais que moldam a vida internacional.

O mundo mudou. Começou com Bandung, mas provavelmente ainda não acabou. A única questão é se conseguiremos mudar em conjunto e para o bem comum da humanidade, em tempos que tanto se precisa de uma governação global que trave a emergência climática e a destruição do planeta.

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