O terror saiu à rua

Este terror não escolhe etnia, religião ou latitude para ser perpetrado

Na última semana, o terror saiu à rua em vários países e cidades. De Paris a Beirute, passando pela Nigéria, onde se têm repetido as ações de terror, temos um denominador comum: o autoproclamado Estado Islâmico. Por mãos próprias ou através de grupos associados, têm conseguido semear o medo, a morte e o terror em diferentes continentes e quase em simultâneo. A sua ação poderia ser comparada à de uma potência militar poderosa com capacidade de atuar em qualquer parte do mundo. No caso deste autoproclamado estado com características que o afastam de qualquer estado moderno, essa ação é feita de forma subversiva, apoiada em elementos originários das sociedades atacadas.

De forma objetiva, podemos dizer que este terror não escolhe etnia, religião ou latitude para ser perpetrado. Afirma-se como uma fonte de medo para que todos se convertam aos senhores do terror de forma passiva. Usando da violência, demonstra que pode criar vítimas em sociedades mais ou menos organizadas, pacificadas ou em estado de guerra. Mas há um facto até hoje desconhecido: nunca uma mesma ameaça uniu tantos estados e populações em países e continentes diferentes. É uma reação natural à desumanidade da morte massiva e cobarde de inocentes.

No entanto, a ameaça terrorista tem uma expressão interna e outra externa. É preciso atuar a diversos níveis. Tanto no difícil controlo das redes internas e externas de atividade terrorista para a perceção do seu modo de atuação, como na identificação das fontes de apoio dos movimentos terroristas. Aliás, este é um dos grandes desafios para a estabilidade internacional, porque frotas de carros novos e armamento pesado pressupõem que estes movimentos são ágeis nos mercados internacionais, tanto na venda como na compra de mercadorias.

O facto de tudo o que diz respeito a estas ações terroristas ser de âmbito transnacional faz crer que apenas uma solução internacional, com a colaboração e interação de vários países, poderá levar a um efetivo combate ao terrorismo. É tempo de se pensarem soluções em conjunto. É também o momento certo para perceber que o autoproclamado Estado Islâmico já percebeu que o mais importante são as pessoas. Constituem recursos únicos para manter a sua máquina a funcionar. Por isso, recruta em zonas onde existem fragilidades socioeconómicas e falhas de integração e usa passaportes alheios para que a população não continue a fugir para destinos seguros. Estratégia inteligente para reforçar a ideia de perigo associada à salvaguarda dos refugiados.

A questão agora é os países sob mira entenderem também que as suas populações são o seu bem mais precioso e que cada indivíduo conta para lutar contra o terror. É preciso unir Estados e cidadãos de modo transnacional para uma ameaça que se tornou global e imprevisível. Confiar apenas em medidas securitárias é dizer ao terrorismo que encontrará sempre brechas para a sua ação.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

Recomendadas

Uma lufada de ar fresco no contexto europeu do Investimento de Impacto

Portugal Inovação Social é das entidades que apoia a Impact Week. E é uma entidade que tem fomentado em Portugal parcerias improváveis entre entidades do setor social na promoção de projetos com impacto social.

A voz da metamorfose

Arquitetos e urbanistas são chamados a desenhar soluções criativas integradas em estratégias maiores, onde é dada voz a uma consciência social e política que tem especial atenção a contextos sociais diversificados.

Uma emergência climática

Portugal não é um país frio, comparando com o resto da Europa, mas é um país pobre, mal gerido e de prioridades trocadas.