O topo na inflação

Ninguém hoje o poderá dizer com certeza, mas arrisco a dizer que a inflação – medida pela sua evolução homóloga – já estará perto do seu topo.

A discussão sobre se a inflação é “temporária ou estrutural” tem dividido os economistas, embora fosse útil definir previamente o que significam concretamente essas palavras. Se este fenómeno durar entre 1 e 2 anos é uma coisa. Se tivermos entrado num ciclo de taxas de inflação acima de 4% durante mais tempo, é outra. Um par de anos é “estrutural”? Creio que não.

A vertigem mediática leva-nos a acreditar que a inflação já é estrutural, mas não estou convencido, mesmo com a guerra ainda a complicar-se. Muitas das dúvidas ficarão dissipadas com algo que estará prestes a acontecer, senão já em curso – as negociações salariais. Já está mais do que demonstrado que “esta” inflação resulta, essencialmente, de choques de oferta, problemas logísticos e subida pronunciada e duradoura dos preços da energia. Será que isso será suficiente para a que a inflação se entranhe nos anos seguintes?

Ninguém hoje o poderá dizer com certeza, mas arrisco a dizer que a inflação – medida pela sua evolução homóloga – já estará perto do seu topo, embora muito condicionada pelos preços da energia no inverno. Há alguns sinais nesse sentido: há mercados onde a escassez de oferta já se está a transformar no problema oposto, os preços da energia dão sinais de reversão ou, pelo menos, de estabilização, várias commodities já estão a recuar reagindo à menor procura por parte de algumas economias, com destaque para a China, e são cada vez mais os sinais de recessão nos países mais desenvolvidos, que a subida das taxas de juros também está a promover.

A evolução dos salários poderá definir se vamos para inflação de 2% ou abaixo em 2024, ou para níveis bem mais altos como na década de 70. Não é fácil responder à pergunta sobre o que seria preferível. Se é verdade que a inflação é um imposto escondido especialmente gravoso para os mais vulneráveis, não subir os salários de forma significativa também implicará cristalizar a perda efetiva de poder de compra.

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