“O Trampolim dá o impulso para um salto de mentalidades”

O Festival Trampolim Gerador promete levar a cultura portuguesa a dar o salto. A primeira edição decorre dia 28 de fevereiro, no Largo de São Paulo, em Lisboa, e tem como curadoras Carla Chambel e Marlene Babo, com quem conversámos. Em que consiste o Festival Trampolim Gerador? Carla Chambel (CC): O Festival Trampolim Gerador, que […]

O Festival Trampolim Gerador promete levar a cultura portuguesa a dar o salto. A primeira edição decorre dia 28 de fevereiro,
no Largo de São Paulo, em Lisboa, e tem como curadoras Carla Chambel e Marlene Babo, com quem conversámos.

Em que consiste o Festival Trampolim Gerador?
Carla Chambel (CC): O Festival Trampolim Gerador, que irá acontecer uma vez por trimestre, pretende fazer cada uma das suas edições numa localidade diferente do país. Daí a ideia do “trampolim”, porque vai saltar de um lado para o outro. É um festival criado para mostrar a cultura e a identidade portuguesa sob as mais diversas expressões, de forma acessível, pois conta ser gratuito. Portanto, uma das ideias principais é descentralizar e democratizar a cultura. Para a programação, a Associação Cultural Gerador convida duas pessoas (que podem ser atores, escritores, artistas plásticos, programadores culturais, etc.), uma da localidade e outra de outro ponto do país, a fim de, em conjunto, criarem uma programação original, atrativa e com potencial reflexivo e dinamizador de diferentes áreas artísticas e culturais.

O Trampolim Gerador conta com algum tipo de apoios/patrocínios? Como se financia?
CC: Para esta edição há uma restrição de orçamento muito grande, pois, sendo uma edição zero, parte do apoio voluntário dos próprios artistas. Conta com o apoio logístico da Junta de Freguesia da Misericórdia, da Câmara Municipal de Lisboa, das lojas locais. O objetivo será, a partir desta edição, o Gerador [plataforma de ação e comunicação para a cultura portuguesa] conseguir financiamentos. Concretizando uma boa edição zero será mais fácil seduzir os agentes locais e nacionais: câmaras municipais, juntas de freguesia, empresas locais e nacionais. O Gerador acredita que este tipo de dinâmicas também vai mexer com a economia das localidades.

Como surgiu o convite para cocomissariarem este festival?
Marlene Babo (MB): Sou leitora da revista trimestral Gerador (projeto editorial da Associação Cultural Gerador), que em julho teve a sua primeira edição, e estou também a colaborar num próximo número da revista. Com esta aproximação que se deu, entre mim e os “geradores” (como lhes chamo), devido ao artigo em desenvolvimento para a publicação, e porque me interesso especialmente pelo meio literário, acabei por ser desafiada para o Trampolim, fazendo par com a Chambel. Tal como ela, nunca havia programado algo desta dimensão e partilho o terror (risos), mas também a satisfação de ver o projeto nascer.

Foi difícil idealizar uma programação para a edição zero? Quais foram as maiores dificuldades?
CC: O tema desta edição é a “Origem”, e é bom termos uma temática porque nos dá balizas. A partir do tema desenvolvi um subtema sobre as origens do Largo de São Paulo (quem lá mora, lojas antigas, personagens emblemáticas, o quotidiano histórico dos marinheiros, etc.) e a Marlene desenvolveu o subtema de Adão e Eva e do pecado original. A ideia era convidar pessoas que admiramos, obras artísticas que sejam uma mais-valia criativa para nós. O difícil foi chegar a uma lógica, que contasse uma história, para que o festival não fosse apenas uma mostra, mas que tivesse um fio condutor. Mas é engraçado, porque quando começamos a falar com os artistas, uma ideia puxa a outra, um contacto puxa outro e, de repente, temos a nossa ideia enriquecida muito para além do que esperávamos.

A que poderemos assistir amanhã no Largo de São Paulo?
CC: O Trampolim abre às 15h00 e tem programação até à meia-noite. Temos iniciativas a acontecer, sensivelmente, de meia em meia hora, com uma pausa para o jantar. Teremos o Coro Menor a abrir o festival, com a roupa de trabalho da mítica loja de fardas Rodrigues e Rodrigues; o José Anjos a declamar poesia na Igreja de São Paulo sobre as quatro virtudes cardeais (que estão representadas no fresco do teto da igreja); eu estarei com o ator Rui Neto na loja Mia Luxury Vintage & Boho a fazer uma leitura encenada de excertos do livro “Diários de Adão e Eva”, de Mark Twain. Teremos um dueto numa antiga loja da Rodrigues e Rodrigues entre a atriz Patrícia Bull e o músico Luiz Caracol sobre uma personagem emblemática do Largo – a Preta Fernanda – baseando-nos num livro de memórias da própria, completando depois com um concerto do Luiz em que as influências africanas são visíveis. E depois haverá oficinas de serigrafia pelo ateliê de design “A avó veio trabalhar e o avô também” (com senhoras do centro paroquial), uma oficina de construção de livros pelo Helder Magalhães. Haverá também arte urbana no espaço exterior feita por vários coletivos como Unigator, Mitaker Maker, Nora e Hugo Henriques. A gastronomia não podia faltar, com o chef Lobão, do restaurante Substância. A farmácia local também se junta ao festival disponibilizando a montra para uma instalação de bordados, vídeo e fotografia. Janis Dellarte e Lúcia Moniz farão um dueto a partir do trabalho das senhoras do centro paroquial, e a Marlene Babo fará um dueto com a banda Não Simão. Teremos ainda uma conversa com representantes das várias facetas do Largo – o presidente da associação de moradores, o presidente da associação de comerciantes do Cais do Sodré, o morador e ensaiador da Marcha da Bica, um representante da Junta de Freguesia da Misericórdia, moderados pelo historiador Paulo Cuíça, que fará ainda uma pequena visita guiada (a começar e a terminar no Largo de São Paulo). Para os sócios Gerador haverá um mimo no Quiosque Refresco.

O projeto teve boa recetividade por parte da comunidade do Largo de São Paulo?
MB: As pessoas do Largo estão bastante recetivas, abriram-nos as portas, entusiasmaram-se com a ideia e quiseram ajudar e participar. Os contactos começavam com um simples “bom dia” ou uma pergunta básica e acabavam em verdadeiras tertúlias sobre a história do Largo e das pessoas, naturalmente, sem termos de fazer muito por isso. O facto de juntarmos os estabelecimentos às performances culturais também gerou uma curiosidade extra, que foi benéfica.

Sendo a curadoria partilhada entre a Carla, que é atriz, e a Marlene, que tem formação nas áreas de direito, sociologia e comunicação, consideram que o vosso background distinto é uma mais-valia para o festival?
MB: A Chambel é a minha alma gémea da curadoria (risos). Demo-nos logo muito bem e as perspetivas que criámos a partir de “A Origem” casaram perfeitamente. O meio com o qual contactamos na vida profissional é, de facto, diverso, mas acaba por cruzar-se a certa altura. Foi um redescobrir das nossas próprias “origens”, até mesmo dessas áreas e pessoas que sempre fizeram parte do nosso dia a dia, e que se tornaram uma mais-valia para o Trampolim, até mais do que nós, meras programadoras.

Quais são as vossas expectativas para esta primeira edição?
CC: Desejo que os espetadores se identifiquem, que sintam vontade de participar nas várias iniciativas. Mesmo que só experimentem uma ou duas, que levem o conceito do Trampolim e o espalhem, falem dele. Espero que quem ali mora se sinta respeitado e elevado com as propostas e que no fim as pessoas sintam que valeu a pena abrirem-
-nos as portas das suas vivências. E por último, mas não em último lugar, que seja uma boa experiência para os artistas que aceitaram embarcar nesta aventura. E, já agora, que o Gerador consiga marcar a diferença no conceito dos festivais.

Em que medida este festival vai ajudar a cultura portuguesa a dar o salto?
MB: A descentralização, diversificação e inovação são muito importantes para a cultura portuguesa dar o salto. Não é por acaso que se escolheram subtemas para o evento. Não queremos ficar pelo óbvio ou pelo simples. A cultura é uma área tão abrangente, e tantas vezes mal compreendida, que precisamos de olhar para ela como um diamante por lapidar (que o é!). Porque é que um estofador é menos artista que um escultor? Ou um coro é menos que uma estrela rock? Vamos colocar tudo equalizado, no melhor dos sentidos. O Trampolim dá o impulso para um salto de mentalidades, acima de tudo.

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