Olhar para fora, mudar por dentro

Se ponderamos tributar lucros inesperados, sem pensar muito nos prejuízos inesperados, por que não criar também um mecanismo de benefícios para as empresas que verdadeiramente apoiam o Estado nesta luta?

Num mês em que se volta a falar de problemas estruturais e sistémicos, há que ponderar comportamentos e perspetivas de futuro. E não é só de Saúde que estou a falar. Más condutas, comportamentos inconsequentes e falta de visão a longo prazo são alguns problemas transversais a várias áreas em Portugal e a todos os níveis da sociedade.

Cabe-me falar de sustentabilidade. Não há um dia em que um comportamento nosso não faça a diferença, sejamos um ministro ou um canalizador. E é nisso que temos de nos focar. Em unir esforços e em fazer melhor e diferente a cada dia. A coletividade é o sistema, e só coletivamente podemos mudar a forma como os processos funcionam, olhando primeiro para a forma como nos comportamos individualmente e tendo em vista o bem comum.

Na âmbito do desperdício alimentar, por exemplo, podemos fazer muito mais em Portugal. Existe no nosso país, inúmeros projetos com muito mérito e relevância, tendo em vista um país e um planeta zero desperdício, como é o caso do Movimento Unidos Contra o Desperdício ou a cooperativa Fruta Feia. São iniciativas com excelentes propósitos mas, ainda assim, insuficientes, pois o desafio do combate ao desperdício é muito mais estrutural e precisa de ser abordado como tal.

Num mundo globalizado, temos a oportunidade de olhar para fora e perceber o que é que os outros países já fazem, na ótica de aprendermos e nos inspirarmos para aquilo que pode ser aplicado em Portugal.

O tema do combate ao desperdício não é novo e vários países europeus já começaram a adotar estratégias individualizadas e adaptadas às suas diferentes características. Estas estratégias envolvem projetos de vários tipos: os que promovem o conhecimento sobre o tema, os que atuam diretamente com os produtores, os que incluem soluções tecnológicas, movimentos e parcerias empresariais, e, por último, projetos em forma de startups que, posteriormente, se transformam em empresas de renome no setor.

Em Itália, por exemplo, na ótica de promover a educação sobre o problema do desperdício alimentar nas escolas, a associação Food Waste Combat desenvolveu, em conjunto com a ONG Clujul Sustenabil, um curso chamado “Respect pentru Resurse” (RPR). Segundo a mesma ótica, aplicada a faixas etárias diferentes, foi lançada a campanha “Love Food Hate Waste” no Reino Unido em 2007, integrada no WRAP, um Programa de Ação de Resíduos e Recursos.

Mas um dos maiores movimentos criados na Europa provém da Dinamarca e chama-se “Stop Spild Af Mad”. Não tem fins lucrativos e trabalha junto do governo e de outras organizações num combate proativo ao desperdício alimentar, sendo reconhecido internacionalmente.

Estas são apenas algumas das muitas iniciativas que se realizam na Europa e também algumas das mais bem-sucedidas. Além de partilharem a mesma missão global, partilham um outro aspeto fundamental: um envolvimento ativo e suporte por parte das organizações governamentais. E é aqui que está a diferença e parte da explicação para o facto de Portugal não estar a fazer mais para combater o desperdício. O ponto de viragem acontecerá apenas quando forem desenvolvidos e disponibilizados os mecanismos de incentivo e apoio necessários para trazer este tema para o topo das prioridades.

Nas escolas, isto pode traduzir-se na criação de um plano que inclua módulos dedicados a esta temática e a uma gestão alimentar consciente e responsável, para que, desde logo, as crianças possam aprender a fazer escolhas informadas e a contribuir para uma geração de impacto positivo.

Para as famílias, pode passar pela disponibilização de excedentes alimentares de mercearias sociais, ou de vouchers alimentares. E, principalmente junto do tecido empresarial, tem de se refletir no desenvolvimento e implementação de diretrizes e legislação concretas, com verdadeiros incentivos fiscais e isenções tributárias atrativas que premeiem as boas práticas e, em sentido oposto, consequências para quem não mostrar empenho no sentido de reduzir o desperdício.

Se ponderamos rapidamente tributar lucros inesperados, sem pensar muito nos prejuízos inesperados, por que não criar também um mecanismo de benefícios para as empresas que verdadeiramente apoiam o Estado nesta luta?

Num mês tão difícil como este, cabe-nos refletir. Somos todos um, na forma como funciona a nossa sociedade. A soma da mudança de um comportamento em casa num dia, com o contributo do nosso voto em época de eleições governamentais no outro, e com a manifestação da nossa opinião perante quem devemos, quando achamos que os microssistemas podem ser melhorados, só poderá dar um resultado coletivo muito melhor do que aquele em que nos encontramos.

É necessário parar, olhar para o cerne do problema e trabalhá-lo em profundidade, de forma a trazer à superfície mudanças com verdadeiro impacto, a longo prazo, em todas as áreas que regem o nosso futuro, seja a da saúde, seja a da sustentabilidade.

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