A tropa de choque da República

Aos ‘trolls’ que atacam Piazza, pouco interessa se a associação tem ou não razões de queixa legítimas quanto à atuação do Governo nos incêndios.

Nádia Piazza perdeu um filho menor e o ex-marido no horroroso incêndio de Pedrógão Grande. Desde então, tem liderado a associação de familiares de vítimas dos fogos, assumindo uma postura muito crítica face à forma como o Governo actuou. Quando a questionaram por que razão a associação não convidou o primeiro-ministro António Costa para o seu almoço de Natal, ao contrário do que fez com o Presidente da República, Nádia Piazza não teve papas na língua: “Convidamos as pessoas que nos ajudaram”.

Concorde-se ou não com Nádia Piazza na avaliação que faz da atuação do Governo no tema dos fogos, a associação tem o direito de não convidar o primeiro-ministro para o seu almoço de Natal. Ainda assim, a decisão de Nádia Piazza valeu-lhe as críticas de uma verdadeira “tropa de choque”, na opinião publicada e nas redes sociais. Alfredo Barroso, que foi chefe da Casa Civil da Presidência da República quando o seu tio Mário Soares era o mais alto magistrado da nação, ganhou o “prémio” do ataque mais baixo a Nádia Piazza. “Brasileira de Pedrógão: manipulada ou manipuladora?”, disse Barroso no Twitter, com o endosso de muitos internautas.

Esta grosseria, que neste caso só surpreende os menos atentos, vale o que vale e não merece grandes comentários. Mas é representativa de um atavismo que ajuda a explicar algum do atraso que Portugal ainda tem face a democracias mais maduras: a ideia, disseminada da esquerda à direita, de que as pessoas que defendem publicamente um ponto de vista o fazem por estarem a favor ou contra o Governo do momento, isto é, alinhados ou não com determinada força política. Ou por serem, como disse Barroso, manipulados ou manipuladores. É como se os únicos autorizados a terem uma intervenção cívica fossem aqueles que, de facto, vivem da política e das suas múltiplas redes de proteção. Já os outros, os que pensam de forma diferente ou, não fazendo parte da matilha, cometem o sacrilégio de não oferecerem aos políticos a conveniente photo opportunity, só podem ser manipulados ou manipuladores. Ingénuos ou desonestos. Não pode haver outra explicação para aqueles que vêem o mundo como estando dividido entre quem está por si ou contra si. É como se a vida em sociedade fosse uma guerra onde não existe direito à neutralidade.

Ora é sabido que a verdade costuma ser a primeira baixa em qualquer guerra, sobretudo numa era em que as redes sociais passaram a ser campos de batalha. Aos trolls que atacam Nádia Piazza, pouco interessa se a associação tem ou não razões de queixa legítimas quanto à atuação do Governo nos incêndios. Perdeu um filho por causa da incompetência do Estado? Não interessa. Se critica o Governo e dá argumentos à oposição, é um alvo a abater.
Outra situação em que a verdade se torna secundária para a “tropa de choque” está a ter lugar no pós-escândalo da Raríssimas. A ex-presidente da associação teve uma conduta que era no mínimo questionável para qualquer pessoa de bom senso, com pormenores muito mais sérios do que as “gambas e vestidos” com que agora procura desvalorizar as acusações. Mas bastou que o caso começasse a beliscar o ministro Vieira da Silva para que a “tropa de choque” rapidamente se atirasse ao tesoureiro e aos outros elementos da direção, procurando diluir responsabilidades e assim aliviar a pressão. Perde a democracia, ganha o spin.

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