Os cenários de disrupção no transporte de mercadorias

O crescimento global vai cair ligeiramente em 2022 e 2023. As cadeias globais de abastecimento estão a sofrer ruturas que foram exacerbadas com a pandemia e os prémios de seguro vão refletir a nova geopolítica.

A guerra na Ucrânia terá um impacto negativo no crescimento global da ordem das sete décimas este ano e mais quatro décimas em 2023, de acordo com as estimativas do segurador Crédito Y Caución. Este foi o último grande evento a afetar as cadeias globais de abastecimento e os seguros de mercadorias.

Pelo meio tivemos a pandemia, eventos climáticos catastróficos ou a interrupção de navegação no Canal de Suez. Refere Pedro Maia, responsável da área de Energias Renováveis/Recursos Naturais da WTW em Portugal, que “a perturbação das cadeias globais de abastecimento causada pela pandemia e pela recuperação, a diferentes velocidades, das principais economias, pelos eventos meteorológicos extremos e alguns eventos altamente disruptivos, como o acidente e consequente engarrafamento do Canal do Suez, ou a recente guerra entre a Rússia e a Ucrânia, realçou os múltiplos riscos que as empresas de transporte enfrentam.

Alguns riscos permanecerão em 2022 e outros continuarão presentes a médio prazo. Neste contexto, a WTW delineou vários cenários de possível disrupção, que podem afetar as coberturas das apólices de transporte de mercadorias, e aos quais os gestores de risco da indústria global de transporte devem prestar atenção, nomeadamente: à manutenção da política “Covid zero” na China; à escassez de contentores de transporte que certamente levará a um aumento da carga a granel; ao valor acumulado da carga que pode superar os limites de responsabilidade incluídos nas apólices de mercadorias em trânsito; ao aluguer de capacidade de carga em navios de terceiros, aumentando assim frequentemente os limites de responsabilidade e a exposição; às cláusulas de qualificação das embarcações, dado que, as seguradoras requerem que os barcos utilizados cumpram com determinamos parâmetros para que a carga esteja coberta; à maior probabilidade de atrasos no transporte, fazendo com que as disposições standard das apólices poderem não ser suficientes; ao facto dos fornecedores de serviços logísticos poderem tentar escapar à responsabilidade e, finalmente, aos atrasos nas reclamações após uma catástrofe natural”.

E que implicações é que a escassez de transportes e de contentores está a obrigar a alterar o modelo de transporte e o impacto nos seguros. A esta questão o mesmo interlocutor responde que são muitas as transportadoras que estão a regressar ao transporte de cargas a granel, sem qualquer embalagem específica. “As seguradoras baseiam as suas tarifas e os termos e condições das apólices na expectativa de que a maior parte da carga possa ser facilmente transportada e devidamente protegida. Qualquer alteração dos métodos de transporte pode afetar as referidas apólices e inerente cobertura”.

Queda do crescimento
Os países mais próximo da zona de conflito no leste europeu reagirão com um impacto mais negativo, ainda segundo a Crédito y Caución. Sendo esta fonte a queda do crescimento na zona euro será maior que nos EUA e na Ásia. Em contraste, o crescimento global pode ainda considerar-se sólido, com mais 3,4% este ano e 3,2% em 2023. Zona euro e EUA irão crescer abaixo da média mundial.

Contrariamente a alguns analistas que antecipam para 2023 uma eventual recessão nos EUA, a seguradora afirma que “a guerra condicionará o crescimento, mas a recessão continua a estar longe, inclusive na zona euro. Considera que esta avaliação tem “incertezas” e está condicionada a que o conflito termine este ano e que as sanções, mesmo sendo reforçadas, “não irão até ao ponto de interromper totalmente as exportações de energia russa”. Os dois países que estão em conflito têm uma participação relevante no comércio global de matérias-primas essenciais para o fabrico de conversores catalíticos, aço, baterias, semicondutores ou aviões. Têm ainda um grande peso na oferta global de trigo, correspondente a 30% das exportações mundiais, de óleos vegetais, milho e cevada.

Foi a interrupção massiva destes fluxos comerciais que elevou os preços da energia em um terço desde o final de fevereiro, refere a Crédito Y Caución. Avança que alguns preços duplicaram em um ano. E não podemos esquecer que o mercado mundial tem um novo problema e que é a escalada da inflação.

Sinistros
A propósito da ocorrência de um sinistro no transporte de mercadorias Pedro Maia, da WTW, sublinha que os eventos catastróficos “têm um grande impacto no transporte de mercadorias, o que, por sua vez, influencia o custo das apólices de seguro”. Além disso, na sequência destas catástrofes, “é natural que a estrutura das companhias de seguro seja sobrecarregada e que as peritagens e a cobrança de indemnizações sofram atrasos. Assim, de forma geral, é fundamental documentar os danos sofridos a todos os níveis com o maior detalhe possível, seja ao nível da própria ocorrência, como em todo o circuito tratado com a empresa transportadora. Atualmente pode ser também muito importante usar alguns procedimentos preventivos, como por exemplo, comprovativos validados sobre a forma e estado da entrega de mercadoria previamente ao transporte, bem como evidência de inspeção prévia ao embarque do(s) contentor(es) (se for o caso). Se for possível tirar fotos e documentar a qualidade da carga e do contentor / embalagem no momento do carregamento, ainda melhor”.

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