Os coletes amarelos em França

Será que Macron vai conseguir ainda margem de reabilitação ou a situação tende a arrastar-se e acabará por claudicar?

Já li/ouvi tanta teoria sobre “o que são os coletes amarelos”. Já ouvi a grande maioria dos nossos comentadores de serviço afirmar que, neste movimento, as forças de comando são a extrema-esquerda e a extrema-direita… Começou-se por ouvir que era um movimento contra a subida de impostos. Teoria esta que perdeu gás quando apareceu um caderno reivindicativo bem mais alargado e, finalmente, a palavra de ordem política: queremos a demissão de Macron. Já agora registo também uma apreciação pessoal sobre o que penso do assunto.

“Os coletes amarelos” reflectem um sentimento de revolta genuinamente popular e generalizado dos franceses, sobretudo contra o governo de Paris, em que se sobrepõem várias e vastas camadas descontentes da população, motivadas para o protesto, pelo arrastar sucessivo da sua perda de rendimento e respectivo poder de compra/empobrecimento. E são sobretudo as camadas populacionais das zonas rurais, das periferias dos principais centros urbanos e dos bairros pobres das cidades que se sentem muito insatisfeitas com um governo que não olha para a sua perda contínua de poder de compra.

Estas diferentes camadas sentiram-se/sentem-se completamente abandonadas pelo governo de Macron, sendo muito provável que muitas dessas pessoas tenham votado nele, na esperança de que algo iria melhorar ou então porque não havia alternativa, pois se exceptuarmos o partido de Marine Le Pen, os restantes estavam completamente esfrangalhados e desacreditados, a quando das eleições de há um ano e meio e ainda não recuperaram, se o vão conseguir.

Macron apareceu como o “sem partido” a trazer alguma esperança, um novo rumo.  Mas Macron começou por tratar mal os franceses. Chamou-lhes “gens qui ne sont rien”. Desprezou o diálogo com as três principais centrais sindicais, que integram sindicatos com profundas e tradicionais raízes na sociedade francesa e poder de reivindicação, independentemente da sua orientação de política sindical. Só se lembrou dos sindicatos com a casa já em chamas, quando o movimento dos “coletes amarelos” já andava na rua há um certo tempo. E ao contrário, o seu “namoro” com o grande patronato ia-se aprofundando. Era cada vez mais uma inclinação visível.

Acabou com o imposto sobre as grandes fortunas, das poucas medidas em que Holande não estivera mal. Podia ser pouco, mas era um marco e Macron desilude todas as camadas da classe média e das classes trabalhadoras com esta posição de favorecimento às classes muito abastadas. Por outro lado, a pretexto de uma pretensa política ecológica que não tem, vem aumentar o preço dos combustíveis o que fez explodir a revolta até aí contida.

Macron não tem uma política ecológica consequente, nem decente. Fez sair do seu governo o ministro que era uma personalidade prestigiada e reconhecida no domínio do ambiente, para agir sem entraves a favor dos grandes patrões, fazendo pagar às classes médias e populares a poluição que as grandes empresas continuam a produzir. Queria fazer figura internacional no cumprimento dos acordos do clima através da sobrecarga de impostos sobre quem menos ou pouco polui.

É evidente que, entre os coletes amarelos, há forças radicais, militantes de extrema- direita, claro. Não tivesse o partido da senhora Le Pen a implantação que tem na sociedade francesa e, por conseguinte, muitos dos seus seguidores associaram-se ao movimento para capturar dividendos políticos. E outra coisa não seria de esperar até porque as eleições europeias se aproximam.

É evidente que poucos aceitam o vandalismo que foi praticado sobretudo em Paris. Mas atenção, em toda a França houve manifestações de peso e há muita pressão nas bases sindicais para as centrais declararem apoio aos “coletes amarelos”.

Macron acordou tarde. Só passado mais de um mês de manifestações resolve agir. Faz concessões e embora criando alguma hesitação no movimento não consegue sanar o descontentamento popular. Funcionou a seu favor o atentado terrorista de Estrasburgo que fez abrandar, pelo menos temporariamente, a contestação.

Mas a sociedade detém o combustível da revolta. Um maior empobrecimento que afecta a grande maioria das camadas sociais. Os estudantes estão a reclamar e não aceitam as reformas do ensino que lhes querem impingir. E os polícias entram também em cena a exigir o pagamento de horas extras (23 milhões de horas) e aumentos salariais – Uma reivindicação já antiga.

E grande parte dos economistas franceses afirma que as medidas avançadas por Macron pouco trazem aos problemas da perda de compra. Além disso há no governo uma confusão quanto às medidas anunciadas, ora entram ora não entram em vigor.

Houve a destruição pelo governo de muitos “acampamentos” dos coletes amarelos nos diversos “ronds-points”, ao longo de França, o que está a provocar um descontentamento enorme e o erguer de novos. Há quem vá passar as festas nesses acampamentos. Enfim, falta a calma e a sabedoria por parte do governo e o assumir de que andou “a leste” dos problemas reais da população durante este ano e meio que já leva de governação. E há ainda a amnistia internacional a condenar o exagero da força policial usada contra os “coletes amarelos”. O que se seguirá?

Para já, um Macron altamente enfraquecido, com dificuldades de agarrar o comando. Está a tentar atrair as autarquias para o seu lado depois de ano e meio de diveregência com elas. E os estudos e sondagens recentes mostram as Autarquias Francesas com bastante prestígio, muito mais que os deputados da República.

Será que Macron vai conseguir ainda margem de reabilitação ou a situação tende a arrastar-se e acabará por claudicar? Há fortes probabilidades desta segunda hipótese ganhar relevo, pois Macron não tem “rede” política nacional consistente. Neste ano e meio não a conseguiu criar. Mais um dos grandes países da UE em crise.

Engraçado. Li há dias um artigo sobre a crise dos três M: May, Macron e Merkel. Em minha opinião, o que está em crise, quase comatosa, é a crise das duas letras UE. Começam a aparecer sinais muito evidentes de uma “internacional de extrema-direita”, muito baseada, e aproveitando exactamente as derrapagens políticas da UE. Só espero mesmo enganar-me.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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