Os desafios da tomada de decisão na era dos Grandes Dados

É importante referir que ter mais dados não significa, necessariamente, uma melhor tomada de decisão, já que a qualidade dos dados é mais importante do que a quantidade.

No passado mês de novembro decorreu a 27ª Conference on Weights and Measurements de onde saíram quatro novos prefixos para o Sistema Internacional de Unidades. Estas novas formas de medição são o ronna (com 27 zeros após o primeiro dígito) e quetta (com 30 zeros após o primeiro dígito), que agora são o topo de medida, o ronto (27 zeros após a virgula) e quecto (30 zeros após a virgula), que estão na parte inferior de medida.

A razão para estas quatro novas medidas é que cada vez mais dados digitais são criados, e o mundo moderno necessita de novas unidades de medição para acompanhar os números em expansão exponencial. No entanto, este aumento exponencial de dados trará impactos significativos na forma como tomamos decisões enquanto seres humanos.

Se, por um lado, uma maior quantidade de dados possibilita (em teoria) que o processo de tomada de decisão se possa basear numa maior escolha de informação, contribuindo assim para decisões mais fundamentadas e informadas, por outro lado, uma superabundância de dados pode levar à sobrecarga de informação e à paralisia da decisão, tornando difícil a gestão das opções para se tomarem decisões com rapidez e confiança.

É importante referir que ter mais dados não significa, necessariamente, uma melhor tomada de decisão, já que a qualidade dos dados é mais importante do que a quantidade. Além disso, desenvolver competências e ferramentas que nos ajudem a navegar num mar cada vez maior de dados é crucial para processar e analisar o meio cada vez mais complexo em que vivemos.

Se adicionarmos o conceito de Bounded rationality (teoria em que a racionalidade nos processos de tomada decisão é limitada e que, dentro desses limites, indivíduos racionais tendem a selecionar decisões satisfatórias em vez das ótimas), dados que não são “curados”, nem têm curador, têm menor probabilidade/oportunidade de se tomarem em decisões informadas.

O que pode ser feito então para inverter este cenário?

Algumas das abordagens passam por “Curar” e processar os dados para ajudar a reduzir o efeito da sobrecarga de informação e facilitar a extração de insights dos dados; usar perspetivas diversas, envolvendo grupos diversificados de pessoas com diferentes prismas no processo de tomada de decisão para ajudar a mitigar enviesamentos, promovendo assim a melhoria da qualidade das decisões; apostar na aprendizagem contínua atualizando o processo de tomada de decisão como forma de promover a adaptação a novas informações e ambientes.

Muitas outras abordagens poderão ganhar tração à medida que nos dirigimos para um futuro onde palavras que nos são desconhecidas hoje, como a ronna, quetta, rontó e quecto, se tornarão tão familiares como centímetro, metro, quilometro ou quilograma.

Assim, a implementação e desenvolvimento de novas estratégias aparecem como forma necessária para uma leitura mais informada da realidade que nos rodeia. Apostar neste sentido é dotar-nos de um propósito diferenciado para funcionar num mundo onde o ritmo da mudança se mede com muitos zeros.

Miguel Oliveira é responsável pela interseção da Psicologia com a tecnologia e coordenador da equipa de Cibersegurança da OPP – Ordem dos Psicólogos Portugueses

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