Os efeitos macroeconómicos da guerra

Com as empresas a enfrentarem o aumento dos ‘inputs’, o aumento esperado dos salários e a verem uma retração da procura inerente a um clima de guerra na Europa, teremos uma estagflação, isto é, recessão com inflação.

Pensei se deveria escrever sobre a guerra, mas rapidamente tive a humildade de não querer pronunciar-me sobre assuntos geoestratégicos que não domino.

A tentação de escrever um artigo eminentemente político, realçando o bem que esteve o nosso Governo, o mal que esteve o líder interno do PSD ou o péssimo que estiveram os dois partidos da extrema-esquerda, a propósito desta invasão à margem do direito internacional de um país (e nação!) independente e democrático, esmoreceu por haver uma quase unanimidade de censura à mesma.

Mas nada me impede, num jornal económico, de tentar adivinhar os efeitos macroeconómicos que daí resultarão, potenciando os efeitos resultantes da pandemia que se desenhavam já no horizonte.

Em primeiro lugar, o aumento brutal do custo da energia (por ex. o barril do petróleo Brent estava hoje a 110 USD e ainda não parou…), conduzirá a uma inflação estrutural e a um desequilíbrio das contas externas de Portugal e da sua balança comercial.

E se as importações aumentarão em valor, com a guerra, as nossas exportações diminuirão e veremos todos o défice da balança comercial a aumentar.

Já ninguém tinha dúvidas que a inflação não era conjuntural, decorrente da disrupção das cadeias logísticas e de aprovisionamento e do aumento da procura. Nestes dias, com os inputs da energia a aumentar o custo das matérias-primas e dos produtos finais, os preços irão disparar e, com o necessário aumento dos salários para compensar a perda do poder de compra, essa inflação passará ser estrutural ou endémica para usar uma terminologia que todos os portugueses já conhecem.

Ora, com as empresas a enfrentarem o aumento dos inputs, o aumento esperado dos salários e a verem uma retração da procura inerente a um clima de guerra na Europa, assistiremos a uma estagflação, isto é, recessão com inflação.

A par e passo disto tudo, a dívida pública tornar-se-á insustentável, pois as taxas de juro aumentarão inelutavelmente e as compras de dívida por parte do BCE reduzirão drasticamente por medo da inflação induzida.

A juntar-se a tudo isto – e como cidadão estou disponível para suportar esse custo – temos todos os efeitos perversos das sanções económicas, o aumento do investimento na defesa e os custos da integração dos refugiados da guerra.

Como não vejo ninguém a preocupar-se com isto, apesar do Governador do Banco de Portugal já o ter referido, vou concentrar-me na guerra!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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