Os grandes são apenas homens

Ficámos sem políticos super-heróis e, provavelmente, sem nomes que a memória coletiva guardará como grandes homens. Mas isso não quer dizer que temos de nos render à qualidade “polichinelo”.

Uma das causas que recorrentemente surge associada aos problemas dos nossos tempos, por exemplo do projecto Europeu, é a falta de “homens com letra maiúscula”. Não há grandes políticos e estadistas, daqueles que havia antigamente.

Confesso que não alinho muito na conversa do “no meu tempo é que era”. Mas percebo. Por vezes dou por mim a olhar para as minhas filhas, para as suas brincadeiras, a forma de se ocuparem, e a pensar: “que desperdício, no meu tempo é que era”. Depois, logo me vem a cabeça que quando eu tinha a sua idade ouvia muitas vezes o meu avô queixar-se que não via grande jeito na forma como eu passava as férias, que no seu tempo é que era. Ora, se uma época é má para os mais velhos, mas os jovens mais tarde a recordarão cheia de virtudes e saudades, a única forma lógica de conciliar estas visões é relativizar. Quando se fala no antigamente deve dar-se o devido desconto.

É indesmentível que há hoje em dia um generalizado desprestígio da classe política. Muito é perfeitamente justificado, mas nem tudo. Acontece que mais importante do que a mudança da qualidade dos políticos, são as mudanças ao nível da sociedade de informação, cada vez mais relevantes para esta aparente ausência de grandes estadistas.

A possibilidade de escrutinar tudo e a toda a hora, de partilhar facilmente, de opinar, de nada esquecer graças à memória permanente da internet, da feroz concorrência por dar mais um pormenor, tudo isto alimentado pela humana (mas bem pequenina) condição de que o que interessa são os podres, as desgraças, as falhas e os vícios, faz com que mais cedo ou mais tarde as figuras públicas nos apareçam despidas de virtudes. Daí a saudade do antigamente.

Não quer dizer que os políticos de então eram imaculados. Mitterrand, Helmut Kohl, Shimon Perez, Lech Walesa, etc., como mostram as suas biografias, também tinham as suas falhas, também tinham um lado negro. Só que naquela altura o lado negro não chegava ao público, ou chegava muito filtrado. Não havia tanta informação, e por outro lado, sendo essas figuras o rosto de estados, era do interesse do Estado que o mesmo fosse forte e credível, separando e protegendo as questões privadas das questões públicas. A velha questão das virtudes públicas, vícios privados.

Hoje em dia, nas sociedades livres, esta mesma mensagem é muito mais difícil de difundir. Não há uma voz exclusiva, nem sequer um canal dominante. Os assassinatos de carácter são quase sempre uma questão de tempo. Pagamos assim o preço da liberdade de informação. Ficámos sem políticos super-heróis e, provavelmente, sem nomes que a memória colectiva guardará como grandes homens, exemplares. Mas isso não quer dizer que temos de nos render à qualidade “polichinelo”. Apenas temos que olhar de forma mais esclarecida. Procurar a autenticidade costuma ajudar.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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