Os ‘loucos anos 2020’ da economia portuguesa

A economia portuguesa, hoje dominada por uma euforia de crescimento contagiante, mostra-se alheia às contrariedades e desafia qualquer previsão de muito curto prazo.

No seu livro “Economia Narrativa”, Robert Shiller, prémio Nobel da economia em 2013, descreve como as narrativas se transmitem pela sociedade de forma viral, influenciando os acontecimentos económicos. Em linha com os estados anímicos de Keynes, Shiller considera que em economia as profecias tendem a ser autorrealizáveis.

Shiller poderia ter sido inspirado pelos dados da economia portuguesa, hoje dominada por uma euforia de crescimento contagiante, alheia às contrariedades e desafiando qualquer previsão de muito curto prazo.

As últimas notícias dão conta destes estados de alma: os preços de casas continuaram a subir no primeiro trimestre de 2022 (INE); os salários subiram no sector do alojamento devido à dificuldade em encontrar trabalhadores; os preços na produção industrial aumentaram 25,7% em junho; as empresas aumentaram salários para reter trabalhadores para contrariar a escassez de mão de obra qualificada (Banco de Portugal).

É certo que há muito para recuperar quando se foi um dos mais afetados pela recessão pandémica, mas a incerteza de uma guerra a Leste, seca, inflação e a promessa de perda de poder de compra seriam razões suficientes para instalar o mais renitente dos pessimismos, sentimento que parece ter sido banido do léxico português.

Mediante este(s) cenário(s), a Comissão Europeia (CE) reviu em alta a previsão de crescimento português em 2022 de 5,8 para 6,8%, um valor muito acima do crescimento médio de 2,7% da União Europeia, enquanto antecipa que em 2023 o crescimento português irá desacelerar para 1,9%, contra os 1,5% previstos para a União Europeia.

A narrativa da CE espelha os dados anteriores e confirma que a economia portuguesa está lançada. Tal dificilmente seria possível sem os fortes apoios concedidos durante a pandemia, responsáveis pela folga financeira das famílias portuguesas após a crise.

E há aqui o sabor do regresso a uma velha narrativa viral, a de que há dois veículos privilegiados do crescimento português – o regresso do turismo e fundos europeus –, ou, que não é certo que estas novas dinâmicas gerem transformações sustentáveis.

Passada a euforia, regressar-se-á à casa de partida.

Este artigo é publicado no âmbito da rubrica “Barómetro”, do Boletim Económico de Verão do JE, parte integrante da edição impressa de dia 22 de julho.

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