Os pequenos partidos agitam a política

Uma sociedade da informação que gosta de soundbites, de experiências e de informação descartável vai dar mais atenção a questões ligadas ao género do que à violência sobre mulheres ou idosos.

As redes sociais têm sido terreno fértil para “fake news” ou para “casos” de saias de assessores. Esta é a forma dos pequenos partidos se fazerem notar, pois o sistema continua desenhado para os partidos do arco da governação, onde se inclui o Bloco.

Nos próximos quatro anos – alguns falam em dois anos e colocam uma pressão suplementar sobre a governação de António Costa – iremos assistir a novas formas de comunicação e as redes sociais, com destaque para os blogues de nicho, são o terreno perfeito para quem começa agora ou para quem é pequeno demais para chegar (e dominar) televisões e outros meios de comunicação convencionais. O que podemos então esperar nestes próximos anos?

Sem sermos muito imaginativos é quase certo que o fenómeno Livre, com uma única deputada que escolhe causas que o Bloco não pode abraçar por ter apoiado o Governo, venha a fazer uma ultrapassagem pela esquerda àquele partido. Um ideal libertário, quase anarquista, que defende a necessidade de reconstruir as estruturas básicas da sociedade, a par de uma revisão acelerada dos parâmetros sociais, vai “puxar” o Livre. Falhou a aposta de um Rui Tavares com uma imagem moderada.

O Chega – que chegou ao parlamento com algumas causas – está a mudar. Já está à direita para assumir o espaço do CDS e a direita do PSD. E, diríamos que o pseudo-extremismo que se atribui ao deputado do Chega, André Ventura, está longe da realidade. Lembremos que veio do PSD, ou seja da direta clássica, à semelhança do dirigente do Vox, Santiago Abascal, antigo militante do PP espanhol.

Pelo que sabemos Ventura ainda não foi convidado por Steve Bannon, a personagem que inventou Trump, financiou Matteo Salvini da Liga Norte e apoiou Marine le Pen, da Frente Nacional. No entanto, em alguns meios já se fala com convicção que poderá vir a ser criada uma Internacional ultradireita com ligações à Igreja Católica, liderada por Banner e apoiada por poderosos financiadores. Mas são só especulações. Banner não está no parlamento português, mas será que George Soros não se instalou já no hemiciclo? É apenas uma pergunta.

Continuando a falar dos pequenos partidos, dos blogues, dos soundbites e de novos movimentos, é legítimo perguntar se o movimento norte-americano “Alt Lite” estará a chegar a Portugal. A estratégia de comunicação dos pequenos é muito agressiva. Relembremos que o Bloco ao crescer tinha apenas personagens bonitas e chamativas ou um intelectual que sabia (e continua a saber) colocar as frases com a entoação certa. O Bloco foi fraturante nas ideias, chegou ao poder e está a sofrer porque lhe querem tomar o lugar. O PCP perdeu a alavanca de uma Internacional comunista, tem um dirigente que é mais um senador e tornou-se um partido mais patriota do que os tradicionais partidos conservadores.

Ainda sobre os pequenos partidos, e sem nos esquecermos do Iniciativa Liberal que tem o discurso mais assertivo mas muito próximo dos partidos convencionais, de notar que iremos assistir a algo estranho. O eleitor-consumidor irá ouvir e dar mais atenção a questões ligadas ao género, como as quotas, do que à violência sobre mulheres ou idosos. E este é apenas um exemplo de uma sociedade da informação que gosta de soundbites, de experiências e de informação descartável.

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