Os planos de contingência

Como bem prega Frei Tomás, a questão de aumentar os salários médios em 20% nos próximos quatro anos é impossível para o Estado ‘et pour cause’ para as empresas privadas.

Escrevo a propósito das recentes intervenções dos nossos ministros da Saúde e das Infraestruturas e da Habitação.

A ministra Marta Temido perante os “constrangimentos” nas urgências dos hospitais públicos, não hesita em acusar o excesso de procura pelos tais constrangimentos e anunciou um plano de contingência para placar os mesmos. Como é que o povo português é tão ingrato que fica doente no Natal ou nos dias festivos? Precisamente, quando os médicos vão para a praia!

Não, não foi a redução do período semanal de trabalho na função pública para as 35 horas (no privado são 40 horas), não, não foi a total falta de planeamento para enfrentar estes excessos de procura (a doença é, caso a ministra não saiba, um facto fortuito, imprevisível e inevitável apenas para o doente), mas sim o excesso de procura em picos e a falta de resiliência dos profissionais de saúde. O que fez a Ministra? Anunciou a concepção, estudo e, crê-se, a implementação de um plano de contingência.

Finalmente, o nosso Ministros dos aviões, Pedro Nuno Santos, também anuncia com desplante que está a preparar um plano de contingência para o afluxo anormal, imprevisto e inevitável de turistas.

O que eu gostava de viver num país que planeasse, programasse e previsse os constrangimentos e os botlenecks que possam surgir no futuro (todos eles previsíveis e recorrentes) e que não se recorresse sempre a uma manta de retalhos ou aos planos de contingência, atrasados, conjunturais, desfasados da realidade e inopinados.

Não é preciso ser um génio para saber que no Inverno há mais gripes, que nos feriados há menos oferta nos hospitais, que no Verão há picos de turistas a visitar-nos.

Estou a prever que o ministro da Administração Interna, perante a época dos fogos, a anunciar um plano de contingência para os incêndios imprevisíveis nesta altura do ano, a ministra da Justiça a anunciar todos os anos um plano de contingência para os tribunais resolverem as pendências, etc..

Não há problema! Para salvar o SNS ou a TAP haverá sempre um pano de contingência!

E para que não se discutam esses constrangimentos, há também um plano de contingência global. E o que significa tal plano? Através de uma recente intervenção despudorada do nosso primeiro-ministro, ficámos todos a saber que os empresários deveriam nos próximos quatro anos aumentar o salário médio dos seus trabalhadores em 20%.

Para quem decidiu aumentar a função pública em 0,9% no primeiro ano, teria muito que correr para também atingir tal meta em quatro anos…Talvez no ano das próximas eleições abra o cordão à bolsa (bolsa nossa, claro).

Numa economia depauperada pelos anos da pandemia e os seus efeitos económicos, num ambiente inflacionista e de subida das taxas de juro provocadas pela guerra na Ucrânia e pela crise energética que daí deriva, aquela afirmação é despropositada, desadequada, despudorada e totalmente irrealista.

Como bem prega Frei Tomás, a questão de aumentar os salários médios em 20% nos próximos quatro anos é assim impossível para o Estado et pour cause para as empresas privadas.

Depois desta constatação, surgem sempre os problemas do detalhe. O que é o salário médio? É a média aritmética de todos os salários na empresa ou uma mediana, através da determinação de um valor central de um conjunto de salários da empresa? Ninguém sabe, e quando ninguém sabe, arranja-se, na altura e em cima do acontecimento, mais um plano de contingência.

Parece a técnica dos três F, de Salazar. Não há saúde, não há SNS, há turistas em excesso, há inflação, há empobrecimento geral, há incêndios em todos o lado, venha o Fado, Futebol e Fátima, leia-se, um anúncio de um aumento do salário, no futuro e pelos outros…. Eis o plano de contingência do PS para o país!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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