Os rankings, ou a mentira que todos deixam passar

Seria interessante fazer-se o comparativo entre os alunos que entram nas universidades com as melhores notas e os alunos que saem das universidades com as melhores notas, para se inferir se há ou não alguma sobreposição de universos.

Não haverá muitos cidadãos no Porto que não saibam de cor os nomes dos colégios onde é preciso colocar as crianças para elas terem aproveitamento necessário e suficiente para entrarem no mundo universitário. Falo do Porto porque é aqui que eu vivo – mas imagino que em Lisboa, e possivelmente noutras cidades de dimensão assinalável, se passe a mesma coisa.

Como toda a gente sabe, essas escolas inflacionam as notas dos alunos para promover a sua aceitação nas universidades. Do ponto de vista do racional de negócio, a coisa está bem: é uma espécie de serviço que algumas escolas fornecem, e pronto; já do ponto de vista da ética, a coisa não podia ser mais desgraçada, o que transforma o assunto, como é mais que evidente, num caso de polícia.

Tudo isto tem a ver, como é óbvio, com os famigerados ‘rankings’ das escolas, que os jornais se divertem a divulgar – patrocinando a eternização da patranha – e que os pais se apressam a ler para promoverem o melhor para a sua prole. Entre outras asperezas que este sistema agora implantado acarreta, encontra-se o facto de algumas escolas, nomeadamente públicas, estarem a tentar ‘desviar’ os piores alunos para outras instituições – chamo ‘os piores’ àqueles que já ninguém tem pachorra para tentar recuperar –, no sentido de retirarem a pressão das más notas às médias gerais finais.

Seria interessante fazer-se o comparativo entre os alunos que entram nas universidades com as melhores notas e os alunos que saem das universidades com as melhores notas – para se inferir se há ou não alguma sobreposição de universos. Pois bem, esse comparativo já foi feito e a resposta é ‘não’. Isto é, não há correspondência entre os melhores alunos a entrarem nas faculdades e a sua capacidade para acabarem os cursos mantendo a sua permanência no topo das classificações – salvo, imagino, as excepções que confirmam a regra.

Tudo isto faz lembrar aqueles gestores que, há uns anos, se fartavam de encher as paredes lá de casa com diplomas que os distinguiam como os melhores do ano, os melhores do sector, os melhores das cotadas, os melhores das grandes empresas, os melhores da Europa e os melhores do que a imaginação prodigalizava – e que, mais tarde, veio a saber-se que eram mais ou menos ‘comprados’ com patrocínios, favores e outros benefícios. Como se ninguém soubesse!

A chatice disto é que há uma perversidade associada ao sistema – que toda a gente sabe qual é, aliás: não estamos a encher o país de jovens capazes, mas de jovens que tiveram belíssimas notas nos anos de acesso à universidade. O que, convenhamos, não é grande coisa e possivelmente não importa nada.

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