Seguros do futuro serão mais simples e partirão de experiências

As obrigações resultantes da diretiva da Distribuição não significam apenas mais literacia e transparência, mas também uma nova abordagem à indústria. Esta será mais simples e terá por base necessidades geradas por experiências.

1 A transposição e implementação da diretiva da Distribuição está atrasada em Portugal. as empresas de seguros estão preparadas para as alterações, nomeadamente no relacionamento seguradores/brokers/mediadores?

2 O que é expetável acontecer no setor com o surgimento das grandes plataformas mundiais de distribuição, tipo Amazon?

3 Como está a indústria a reagir perante a transformação de um modelo de distribuição B2C para um modelo P2P?

Oscar Herencia: Diretor-geral da MetLife para Portugal e Espanha

1 – Na MetLife temos vindo a trabalhar com todos os parceiros no sentido de todos os envolvidos estarem preparados para as alterações que surjam no setor dos seguros. Uma vez que os consumidores exigem uma maior digitalização em busca de experiências diferenciadoras, sem dúvida que o futuro passará por aí. Por esta razão, as empresas serão “obrigadas” a transformar as suas operações e relacionamento com parceiros para simplificarem e agilizarem processos. O cliente vai estar cada vez mais no centro de toda a atividade das seguradoras e vai ter acesso a produtos cada vez mais simplificados. Neste domínio, temos vindo a procurar simplificar os nossos seguros Vida e de Acidentes e a efetuar um esforço de investimento na educação financeira dos clientes, para ajudá-los a selecionar as melhores opções para o seu caso particular, da forma mais fácil e rápida.

2 – Terá um impacto no setor, mas não está ainda claro em que áreas isso poderá acontecer. Por exemplo, os seguros de Vida e Acidentes são uma área muito especializada e cada vez mais com produtos personalizados, em que a confiança (a longo prazo) do cliente na companhia de seguros é crucial. A MetLife já tem 150 anos e a inovação faz parte do nosso ADN. Fomos a primeira seguradora a vender seguros de Vida no formato que conhecemos hoje em dia e a primeira a criar seguros coletivos. Também na área digital estamos muito avançados. Através de MetLife Digital Ventures, MetLife Digital Accelerator ou do Lumen Lab, temos vindo a procurar e promover as melhores práticas em inovação digital e liderar o desenvolvimento da indústria. Creio que o impacto dessas plataformas mundiais será sentido mais em alguns produtos mais padronizados.

3 – O P2P ainda tem um caminho a percorrer, inclusive em termos de regulação. É um facto que os clientes vão querer recorrer a plataformas e ferramentas digitais, como as aplicações, para obter um processo de contratação com menos requisitos. A digitalização vai permitir reduzir procedimentos, uma vez que com esta será possível perceber que tarefas podem ser eliminadas e quais as tarefas que o cliente está disposto a pagar. Em última análise, a digitalização vai permitir um maior conhecimento dos clientes e a criação de produtos mais direcionados às suas necessidades. Por exemplo, a MetLife, já está a usar ferramentas de Big Data em Hong Kong para ajudar a oferecer proteção a pessoas que anteriormente não conseguiam ter um seguro, como os doentes com diabetes. Esta abordagem permite aos clientes registarem os seus dados de saúde e, complementarmente, gerir a sua doença de uma forma mais simples e efetiva. Como resultado, a proteção em termos de saúde (seguro) fica mais acessível a este grupo de pessoas, algo que não podia ser feito sem os avanços na digitalização dos seguros. Estamos a falar de, respeitando a legislação aplicável e obtendo as autorizações necessárias, aproveitar as ferramentas de Big Data para analisar os comportamentos do consumidor e determinar o prémio do seu seguro.

João Quintanilha: Administrador delegado UNA Seguros

1 – As Companhias foram-se preparando, dentro da informação que foi chegando, e estarão genericamente aptas à sua implementação. Face ao que já se conhece, parece-nos que não haverá uma dificuldade significativa na sua aplicação prática, até porque as alterações, sendo importantes, não são excecionalmente profundas. De qualquer forma ainda será essencial conhecer a Regulamentação específica, pois a mesma é que irá nortear a parte mais relevante dessa adaptação.

2 – A complexidade, variedade e sofisticação dos produtos de seguros tem protegido, até à data, a distribuição tradicional e tem valorizado bastante a intervenção humana. A venda sem intermediários é ainda marginal, em Portugal. A quota de mercado de venda direta por telefone (já existente há muitos anos) ainda é muito inferior aos países onde tem sucesso na Europa.
A venda pela internet está a iniciar-se em Portugal, mas até à data é muito incipiente, e mesmo noutros países onde já foi lançada há mais tempo ainda não tem uma expressão significativa. O que tem vindo a acontecer é uma evolução tecnológica muito acentuada no apoio às redes tradicionais, no sentido de uma maior eficácia na gestão das apólices, possibilitando também ao cliente acesso a mais informação e a meios para interagir com as seguradoras. A multiplicidade de ferramentas, já disponíveis e em desenvolvimento, visam permitir ao cliente complementar a venda personalizada com a informação digital.
É um facto que as grandes plataformas podem ter um papel relevante também no domínio dos seguros. Mas também é um facto que hoje os consumidores estão mais atentos a determinados riscos, inerentes nomeadamente ao fornecimento de dados pessoais e aos riscos da sua utilização. Em última instância, todos os clientes valorizam, nos momentos cruciais, a importância da proximidade gerada pela interação face a face.
De qualquer modo, uma coisa é certa: a distribuição de seguros irá evoluir para uma etapa cada vez mais digital e a transformação será relevante. A dúvida é o ritmo dessa mudança.

3 – É determinante que a atividade seguradora se adapte e evolua para responder às exigências de um novo tipo de clientes, que valorizam a simplicidade e a flexibilidade de soluções. Sabemos que a vantagem do seguro nem sempre é fácil de intuir, e a contrapartida do prémio nem sempre é percecionada. Este aspeto pode desvalorizar a relevância do seguro e abrir portas para outras tentativas de solução, ainda que as mesmas possam (apesar de baseadas em tecnologias atuais) estar a replicar a origem do seguro na sua aceção de mutualismo. O P2P reconstitui, de certo modo, esse modelo. Só que hoje o grau de sofisticação e de responsabilidade é completamente diferente!
Em todo o caso, os novos modelos de procura de soluções alternativas irão desafiar, cada vez mais, o setor segurador. Este vai estar sujeito ao desafio digital, à introdução da robótica e à novidade de economia partilhada. O P2P pode ser mais uma disrupção num futuro ainda desconhecido.

Conceição Tomás: Agents & Marketing Manager da Generali

1 – A diretiva da Distribuição ainda não está regulamentada, pelo que não é possível avaliar a totalidade dos seus impactos. No entanto, existirá sempre uma necessidade de adaptação de todo o sector, que já está em curso, e que será muito relevante ao nível das redes de distribuição. Na Generali temos vindo a trabalhar no sentido de respondermos de forma eficaz e célere aos desafios, beneficiando do facto de integrarmos um dos três maiores grupos seguradores da Europa.

Corvaceira Gomes: Diretor executivo da Aprose

1 – Convém realçar que Portugal adotou uma atitude maximalista aquando da transposição da anterior diretiva da Mediação de Seguros, sendo que a diretiva em processo de transposição deixa praticamente inalteradas as condições de acesso à atividade e tão-somente reforça os requisitos e regras de exercício da mesma atividade, muitos dos quais os associados da Aprose já seguem e respeitam no seu dia a dia, designadamente na adequação e caráter apropriado dos produtos aconselhados às reais necessidades dos clientes e de acordo com os seus melhores interesses, pelo que estamos em crer que não terão grandes dificuldades na adaptação ao novo quadro legal.

2 – Na nossa opinião os seguros serão sempre uma atividade de pessoas para pessoas, sem embargo de também entendermos que, especialmente nos riscos massificados, existirá, como sempre houve, alguma tendência para a “despersonalização” e “desumanização” na transferência dos riscos, cujos canais de distribuição, como é sabido, não lograram sucesso assinalável até à data. As plataformas eletrónicas referidas, mais do que uma ameaça, constituem um enorme desafio que importará monitorizar adequadamente, sendo que, apesar do potencial que encerram no processo de venda, tendencialmente em regime de mera execução e sem aconselhamento efetivo, eficiente e apropriado, também entendemos que no pós-venda apresentam, de igual modo, um enorme potencial de perda de competitividade e de baixa fidelização e retenção em relação aos agentes e corretores de seguros representados pela Aprose.

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