Daniel Traça: “Os tempos mudam e o mundo exige que mudemos à frente”

A Universidade, diz Daniel Traça, tem a responsabilidade de ajudar o futuro a torna-se mais otimista e a Nova SBE quer dar o exemplo. A aposta nas novas áreas da ciência e nos desafios societais, a proximidade às empresas e o ecossistema de inovação são peças da estratégia.

Dentro de meses, Daniel Traça termina o seu segundo mandato à frente da Nova School of Business & Economics, onde se formou em Economia e é o primeiro antigo aluno a exercer a função de diretor. A sua liderança fica marcada por um ímpeto transformador e obra feita, a qual inclui, por exemplo, a criação de um ecossistema de inovação, a duplicação dos mestrados, o lançamento de novas áreas do conhecimento, o aumento do valor dos apoios para alunos carenciados. É indelével a sua marca na Nova SBE.

Que papel desempenha a Universidade num mundo em que o professor deixou de ser o centro do conhecimento? O que é a Universidade hoje?
Mais do que aquilo que é, importa o que tem de ser. O primeiro grande desafio da Universidade é a necessidade de pensar e reimaginar o mundo.

Pode explicar?
Vivemos num pessimismo generalizado, muitas das coisas que hoje se passam nas sociedades são na maioria difíceis de perceber e não são positivas, o que deixa as pessoas numa enorme inquietude. Vemos menos optimismo nos jovens do que no passado, menos vontade de as pessoas estarem umas com as outras e menos colaboração e cooperação entre as nações. Há, de facto, um sentimento de pessimismo gerado por um certo medo do futuro. É neste contexto que devemos ver a Universidade, porque historicamente é o espaço onde se pensa o conhecimento e se formam os jovens, que são os donos do amanhã.

Como é que a Universidade assume esse papel?
Para que as Universidades sejam capazes de ajudar a transformar o futuro de forma a que este se torne mais otimista, é necessário atuar em várias dimensões, dou-lhe três pistas fundamentais. A primeira dimensão é a pedagogia, isto é, a forma como ensinamos e despertamos nos alunos a vontade de criar soluções novas para problemas novos. O processo de aprendizagem tem que funcionar não na lógica do ‘eu sei e passo aos alunos’ que pertence ao passado, mas numa lógica em que alunos e professores fazem parte de comunidades que criam, pensam e têm ideias em conjunto. No fundo, aprende-se pela troca coletiva. Isto implica uma aprendizagem muito baseada na prática, em projectos que os alunos têm que desenvolver, que são novos e não se sabe qual é a solução… mas vamos lá chegar!

Qual é a segunda dimensão?
A proximidade. A Universidade tem de ter uma proximidade muito maior com a realidade à nossa volta, com as empresas, com o Terceiro Sector, até com o Estado. Não pode continuar fechada numa Torre de Marfim, num ambiente muito focado na sua disciplina, tem de trabalhar com todos os atores da sociedade e numa lógica interdisciplinar. A interdisciplinaridade é a terceira vertente de atuação. O conceito de disciplina como havia antigamente em que se aprendia isto, aquilo, o outro, deixou de ser válido. Passámos de uma lógica de fontes de saber para uma lógica de problemas a resolver em conjunto.

Como é que a Nova SBE se enquadra nesta visão da Universidade do futuro?
Esta nova lógica de resolver problemas em conjunto, de forma interdisciplinar e próximos da sociedade tem orientado muito o nosso trabalho aqui e vai continuar a orientar, sempre com o futuro no horizonte. Os mestrados são um bom exemplo. Acabámos de lançar mais um programa, o terceiro. Em dois anos duplicámos a oferta. Fizemo-lo porque sabemos que são fundamentais estas novas áreas da ciência, a inovação e o empreendedorismo, o ‘analytics’ e os dados, a dimensão da política pública. Os novos mestrados, além de serem em áreas muito mais aplicadas, têm uma estrutura baseada no “Project Based Learning”, em que os alunos começam logo a trabalhar em projectos.

A estratégia da Nova SBE tem nas empresas um pilar importante. Seria possível construir o futuro sem essa proximidade?
Obviamente, todo o projeto de ‘fundraising’ do Campus foi importante, mas o aspecto mais interessante é que isso mudou-nos. Não nos mudou só porque construímos um Campus e arranjámos financiamento para o fazer, mas mudou-nos porque percebemos que há muita oportunidade de co-criar com as empresas, com as ONGs e mesmo com o Estado. O mês passado demos um passo importantíssimo neste caminho: inaugurámos o nosso ecossistema de inovação, um espaço que permite às empresas trazer equipas de inovação para o Campus e aqui resolver os seus problemas mais importantes com os nossos alunos a ajudarem. Esses projetos de parceria garantem, por um lado, o desenvolvimento de competências importantes para o futuro dos alunos, e pelo outro lado, permitem às empresas beneficiar de ‘inputs’ mais disruptivos e geradores de mudança trazidos pelos alunos, que sendo a geração do futuro são mais fortes a pensá-lo. Com o ecossistema de inovação, os alunos já não vão ter que sair para as empresas, porque elas estão aqui 24 horas por dia, 364 dias por ano (fechamos no Natal), com o objetivo, não só de trabalharem com eles, mas de se transformarem a elas próprias.

E a interdisciplinaridade?
Está ligada a todos os grandes temas do futuro, mas destaco aquele que está a ganhar uma importância fundamental na Escola: o desafio da sustentabilidade e sobretudo a dimensão do clima, mas, no geral, todos os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas são importantes, para nós.

Quais são as grandes temáticas do ensino e da investigação da Nova SBE?
No ensino fizemos um enorme esforço com os três mestrados — Business Analytics, que traz a dimensão dos dados e da tecnologia para o core da Gestão; Inovação e Empreendedorismo, que no fundo, prepara os alunos para serem agentes de mudança, não só nas startups mas nas empresas; e Public Policy, que permite começar a preparar pessoas com conhecimentos de gestão e de dados para a coisa pública. A gestão das políticas públicas é fundamental para esta visão nova de onde vamos querer estar no futuro e de como se gere um país numa óptica sustentável. Na investigação, estamos a atrair cada vez mais investigadores de topo internacionais, o universo da Escola está a publicar como nunca se fez e do ponto de vista do reconhecimento académico, estamos a desenvolver mais capacidade, nomeadamente agora com o ecossistema de inovação.

As ciências humanas e as artes entram novosso mundo?
Certamente. A ideia é trazer para todas as questões uma abordagem interdisciplinar e muito baseada na criatividade. As artes são muito importantes… o Campus (a Covid -19 atrasou muito o projecto) tem que ser um espaço em que os alunos aprendem, não só por causa das aulas, mas porque aí passam 24 horas se necessário, com os colegas que não são só de Economia ou de Gestão, e onde há uma acontecimentos sociais e artísticos que ajudam a crescer e desenvolver capacidade interdisciplinar. O Campus vai estar muito ativo futuramente.

Esta visão humanista que traça contrasta bastante com a imagem que, no geral, se tem da Nova SBE, uma escola neo liberal, elitista e virada para os estudantes estrangeiros.
Os tempos mudam e o mundo exige que mudemos. Mais. Exige que mudemos à frente, caso contrário já ficámos para trás. Há de facto uma mudança do paradigma do século XX, em cuja segunda metade esta escola nasceu e cresceu, para um mundo desconhecido, muito assente na inovação e disruptivo, no sentido em que tudo aquilo que achamos que era verdade poderá deixar de ser. O mito de que as soluções antigas são válidas para o século XXI é perigosíssimo, pois a maior parte não são. Temos que nos reinventar, reimaginar e trazer novas soluções. A resposta à sua questão tem, por isso, duas dimensões. Primeiro, acho que fazem passar da Escola uma imagem daquilo que não é. Em segundo lugar, porque a própria Escola está inserida nesse mundo em mudança e tem que ajustar os perfis e as competências que entrega aos seus alunos de acordo com esse novo mundo. Isso passa por perfis mais abertos, humanistas e capazes.

Que lugar ocupa a internacionalização na estratégia da Escola?
Fundamental. Estamos no mundo, não podemos entrar em dinâmicas regionais ou fechadas, e queremos ser uma escola do mundo. Para tal, temos que ser excelentes, o que passa por termos os melhores professores, incluindo portugueses que estão lá fora. Nos últimos três anos conseguimos atrair sete que regressaram ao país devido ao nosso modelo. Ao nível dos alunos atraímos os melhores, portugueses e estrangeiros, e fazemos questão disso, porque achamos que o tipo de competências que se ganha neste ambiente multicultural e multinacional é essencial para os jovens, que são a nossa primeira responsabilidade, mas também para o país, que é também uma responsabilidade que sentimos. Há, no entanto, algo que tenho que destacar que é a passagem da Universidade NOVA de Lisboa a Fundação. O facto de termos explorado esse regime para nos dar mais liberdade tem sido muito importante no nosso crescimento.

Quantos alunos estudam cá?
Estudam na Nova SBE cerca de 5 mil alunos – 35% frequentam programas de licenciatura, 55% mestrado, e os restantes 10% são alunos de doutoramento ou de mobilidade internacional. Este ano letivo recebemos 600 novos alunos de licenciatura e 1600 de mestrado.

Qual tem sido a evolução nos mestrados?
Exponencial. Os candidatos cresceram 45% desde 2017/18. Nesse ano, ainda, no Campus de Campolide, recebemos cerca de 600 novos alunos, dos quais 42% internacionais. Dos 1600 deste ano 60% vieram de fora.

Quanto custa um mestrado vosso?
Um programa de mestrado pré-experiência na Nova SBE, com a duração de três semestres, custa aproximadamente 12 mil eruos. Especificamente para o Mestrado em Finanças 13.500 euros.

Os mestrados são uma fonte importante de receita própria?
Essa componente da receita é importante para a Escola, no entanto, ao mesmo tempo que a aumentamos, também aumentámos o montante disponível para bolsas de forma a permitir que todos possam ter acesso universal a um ensino de excelência. Este ano disponibilizámos cerca de 1,5 milhões de euros em apoios. Conseguimos isto porque contamos com contributos de ‘fundraising’ de antigos alunos, parceiros e muitas outras pessoas que nos apoiam. Também destaco a parceria com a Fundação José Neves, que permite aos alunos financiar os estudos na totalidade, retribuindo mais tarde de acordo com o sucesso profissional que obtiverem e numa lógica de retorno para ajudar novos alunos. A nossa intenção imediata é dinamizar ainda mais as bolsas e os apoios, pois achamos fundamental que o custo não seja inibidor da entrada de alunos que têm mérito e potencial, mas não condições financeiras para o desenvolver.

Os Mecenas estão activos?
Temos crescido sobretudo em duas áreas, nas bolsas oferecidas por empresas e indivíduos e nas cátedras. Houve um aumento de três para sete desde a abertura do Campus com a expectativa de mais cinco ainda este ano letivo.

Há novidades na forja em matéria da oferta formativa?
A formação ao longo da vida é uma nova pressão sobre as pessoas trazida pelo século XXI, à qual a Universidade tem que dar resposta.Vamos colaborar nesse ‘reskilling’ e ajudar a colocar as pessoas na força de trabalho. Já em 2022 vamos lançar seis mestrados novos, mais curtos, para pessoas com experiência. Permitem renovar competências e obter grau.

Éfrequente empresários e gestores portugueses queixar-se de que não encontram pessoas com as competências que precisam. Qual é a sua leitura da situação?
É uma tendência do mercado de trabalho em Portugal que tem a ver com o facto de inicialmente ter havido um ‘boom’ da oferta de pessoas muito qualificadas e recentemente um ‘boom’ da procura. Deve-se sobretudo à instalação de empresas estrangeiras, a que se associa, agora, no pós-Covid a procura externa por pessoas que trabalham para empresas estrangeiras a partir de Portugal. Tudo somado, está a aumentar a pressão sobre o mercado. Acho que podemos ajudar do lado da formação, mas existe uma outra dimensão que se resolveria com uma política de emigração mais agressiva.

Com os salários que o país oferece…!?
Não conseguiremos atrair da Alemanha ou da Finlândia, mas há muito e extraordinário talento nos países do Leste da Europa, que vivem situações complicadas como a Ucrânia e a Bielorussia. Portugal tem uma marca muito forte e tem que conseguir suste-la, caso contrário o progresso económico será posto em causa. É preciso que as multinacionais continuem a ver Portugal como um país onde há talento para que continuem a investir cá. Esta dinâmica também teria um efeito sobre os salários.

Alguma vez sentiu que a boa ligação às empresas tenha posto em causa a independência científica da Nova SBE?
Não. Nunca senti nenhuma pressão do ponto de vista científico, o que não quer dizer que a escola continue a ser o que era. Não é. Tem uma responsabilidade acrescida de ‘accountability’, de mostrar resultados, explicar o que se passa a todos os que generosamente se disponibilizaram a ajudá-la – empresas, cidadãos e antigos alunos. Isto é novo e exige que a Escola se transforme. Quando se cria um projecto que é muito diferente há um trabalho de alinhar expectativas que exige a disponibilidade de todos para ir aprendendo ao longo do processo.

Que considerações lhe merece o Plano de Recuperação e Resiliência?
Deixando de lado as prioridades e o envolvimento do ensino superior, que na minha perspectiva poderiam ter sido algo diferentes, o mais importante do ponto de vista do país é que esta dinâmica tenha como contrapartida uma nova lógica para evitar que estejamos depois a inventar narrativas ou a contar histórias. É agora que temos de definir o que é o sucesso, os seus indicadores, o ponto onde estão agora e onde queremos que estejam daqui a X anos, quem é ‘accountable’ perante esses indicadores. Falta isso no PRR. Somos um país com alguma dificuldade no planeamento, um país fantástico em crise, no espírito de sacrifício, demonstrámo-lo em 2011 e com a Covid-19, mas depois enfrentamos dificuldades e voltamos a cair. O PRR teria sido uma boa oportunidade para uma abordagem ao planeamento e ao foco no longo prazo e nos resultados.

Poderemos um dia vir a ver um Prémio Nobel na Nova SBE?
Claro que sim, vai haver um momento em que vai acontecer. Um Nobel que decide vir para cá, juntar-se a nós, ou uma das nossas pessoas que daqui a uns anos pode vir a ter essa projeção.

Em 2022 completa o segundo mandato. Vai recandidatar-se?
É muito importante regenerar, está na altura de haver sangue novo, ideias novas, vontades novas, dinâmica nova. Eu também hei-de encontrar um espírito novo noutra coisa que venha a fazer. A vida é demasiado curta e a rotina o pior inimigo do nosso sentido de propósito.

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